Eu Ator e Eu Observador

27/02/2017

Este exercício nasceu de duas motivações: agrupar algumas considerações sobre os papéis denominados Eu-ator e Eu-observador, e na aplicação destes conceitos na análise fundacional de algum autor ou obra publicada.

Fugindo um pouco do tipo de autor ou obra normalmente escolhidos para este tipo de exemplificação, eu escolhi os heterônimos de Fernando Pessoa.

Os termos Eu-ator e Eu-observador são usados normalmente no psicodrama para focalizar esta bipolaridade intrapsíquica. O termo Eu-observador designa aquela parte do Eu que governa as funções perceptivas e de discriminação, tornando a pessoa testemunha de si mesmo no mundo; esta parte, que pertence à parte consciente, estaria livre de ambivalência, de distorções e indecisões (1). Moreno denomina esta polaridade como “observador interno” (2). A outra polaridade, a do Eu-ator, é aquela responsável pela ação como o próprio nome induz.

É importante recordar que a ação pura existe somente em casos limites, assim como a reflexão pura, mas que no momento em que esta reflexão vem verbalizada ou escrita, passa a ter também uma componente de ação. Neste exercício, será possível identificar figuras internas cujo aspecto é tendencialmente aquele da ação, ou aquele da observação.

No nosso cotidiano, vamos encontrar a prevalência da ação nas atividades de rotina com a repetição de ações estereotipadas que não requerem, alias, excluem a reflexão. Somente quando alguma coisa não funciona nestas rotinas è que a reflexão é acionada. Está presente também nas explosões de cólera, onde prevalece a ação quase exclusiva sobre a reflexão. Seria o Eu-ator em pleno desempenho.

Uma outra situação é aquela da concentração exclusiva sobre um objeto, ocupando inteiramente a capacidade de concentração da atenção da pessoa, e tornando difícil a possibilidade de se destacar, de ver-se de fora e, sobretudo de perceber um antes e um depois. É um ser absorto com alguma coisa que não é a própria Gestalt de referência, isto é, o contesto no qual se encontra. Observar-se é o sair fora de si, para poder se ver. O comportamento como Eu-observador não deve ser confundido com uma atitude reflexiva, mas é um destacar-se e observar-se no contesto da ação. Tal situação é intencionalmente provocada nas sessões de psicodrama.

Durante uma seção o psicodramatista leva o protagonista (ou paciente) a colocar-se nas duas polaridades, ou seja, como ator e como observador. Na primeira polaridade ele reexperimenta o registro da vivência, e na segunda ele tem a possibilidade de observar-se e observar o contexto, podendo assim interiorizar (memorizar) a vivência de uma maneira mais clara e integrada.

S.Freud assinala esta importante faculdade: “o Eu pode considerar a si próprio como objeto, pode tratar a si próprio como um objeto qualquer, isto é, observar-se e criticar-se”. (3) Sua filha, Anna Freud, faz um comentário no mesmo sentido: “Me convenci que o separar uma função observadora do resto do Eu poderia constituir uma característica habitual da estrutura do Eu”. (4)

A auto-observação nos vários papéis serve para ampliar a autoconsciência e o autocontrole. A ação propriamente dita não possui uma localização no tempo, pois o tempo para ela é somente aquele no qual ela se desenvolve. A possibilidade de se observar e refletir permite inseri-la numa sequência de tempo.

J.L.Moreno atribui a esta polaridade Eu-ator e Eu observador, uma importante função do desenvolvimento intrapsíquico. Ele chega a assinalar a existência de centros que define como “centro da ação e centro do conteúdo”. Esta hipótese é justificada por Moreno, através do processo de memorização que utiliza dois diferentes percursos neurológicos, e por isto, não poder se apresentar simultaneamente. Segundo ele, a importância da função do participante interno (Eu-observador) é permitir a memorização do vivido na ação.

Moreno acena então com a possibilidade de conceber no individuo uma cisão entre a “personalidade da ação” e a “personalidade conceitual”. (5) Tal impostação conceitual nos leva a definir os dois papéis: Eu-ator e Eu-observador.

Feita a distinção acima entre o observar e o refletir, acho igualmente importante dar à expressão Eu-ator, a conotação que possui dentro do psicodrama.

Diferentemente da concepção de Goffman (6), que é aquela investidura do individuo que serve para sustentar o personagem da representação enquanto esta ocupado em sustentar uma certa definição da realidade, o ator psicodramático não aparece, mas se manifesta, deixando transportar-se nos territórios da semirealidade, com o temor e ao mesmo tempo o desejo de reconhecer as próprias emoções. A concepção clássica de ator se aplica mais adequadamente àquilo que no psicodrama seria o eu-auxiliar da pessoa, isto é, que num certo momento tem o compito de encarnar certo papel (como indicado pelo protagonista ou pelo diretor), no melhor de sua capacidade expressiva.

O ator Goffmaniano é aquele da vida cotidiana, na qual a pessoa é obrigada a esconder-se e a fabricar aparências, enquanto no palco cênico Moreniano, o ator se entrega nas mãos do diretor e confia na aceitação dos colegas, para poder ser e encontrar-se.

Do ponto de vista do psicodrama, o Observador que funciona bem é aquele que utiliza a conceituação de forma dialógica relativamente ao que o Ator está vivendo naquele contesto. Quando tal relação dialógica não está bem desenvolvida, podemos ter a predominância da reflexão sobre a observação.

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Fernando Pessoa nasceu em Lisboa em 13 de junho de 1888, e imediatamente após a morte do pai em 1894, começou a criar os heterônimos – pessoas imaginárias para povoar o teatro íntimo do seu Eu.

Em 1914 começa a escrever usando o seu primeiro heterônimo: Alberto Caieiro. A criatividade irrefreável do seu mundo interior se manifestará também através da personalidade de Ricardo Reis, e naquela de manifestação oposta, ou seja, de Álvaro de Campos.

Alberto Caieiro emerge como uma figura dominante em relação à de Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Fernando Pessoa sentia estas suas figuras internas como vivas e acabou dando-lhes uma biografia. Alberto Caieiro da Silva nasceu em Lisboa, em abril de 1889, e faleceu na mesma cidade em 1915. Passou quase toda a sua vida numa quinta do Ribatejo, voltando a Lisboa no final da vida, da qual alias, não ha o que narrar, sua vida e suas observações reflexivas se confundem.

Alberto Caieiro propõe uma poesia de inspiração inesperada, é uma linguagem discursiva que, às vezes, apresenta alguns lapsus. É agnóstico e deseja anular a morte negando a consciência. A sua postura é de um paganismo existencial. Caieiro é considerado o heterônimo que não deseja nada. E’ o filosofo dos heteronomios.

“O único sentido íntimo das cousas

É elas não terem sentido íntimo nenhum.

 

Não acredito em Deus porque nunca o vi.

Se ele quisesse que eu acreditasse nele,

Sem dúvida que ele viria falar comigo

E entraria pela minha porta dentro

(O guardador de Rebanhos, poema V, O que penso do mundo)

 

Mas o ponto mais interessante da sua poesia, alem de declarar uma objetividade absoluta, è aquele de interrogar-se com irrefutável inocência sobre a generalização do significado dos simbolos. Reconhece que a ligação entre o significante e o significado é feita pelo código interno de cada um. É um observador reflexivo que se utiliza de uma metalinguagem para se exprimir.

“O universo não é uma idéia minha,

A minha idéia do universo é que é idéia minha”

(Poemas inconjuros, O universo não é idéia minha, 01.10.1917)

 

“Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento, Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade, Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada. Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada. Assim tudo o que existe, simplesmente existe. O resto é uma espécie de sono que temos, infância da doença. Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.”

(Poemas inconjuros, Assim como, 01.10.1917)

 

Alberto caieiro assume desta forma um papel de destaque, come o Eu-observador de Pessoa. Ele não é participante das ações. O seu papel é aquele de descrever o que observa e interpreta da realidade. A sua visão do mundo é que as coisas já estão aqui na sua plenitude, e que o homem vê somente aquilo que os outros o ensinaram a ver. Este personagem interno se coloca como um crítico daquela forma de interpretação que Moreno atribuiu como determinada pelas “conservas culturais”, ou seja, interpretações que herdamos na nossa formação. E.Kant já dizia: “Das coisas, nós conhecemos aquilo che colocamos nelas”.

“Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas, Rio como um regato que soa fresco numa pedra.

 

Porque o único sentido oculto das cousas É elas não terem sentido oculto nenhum, É mais estranho do que todas as estranhezas E do que os sonhos de todos os poetas E os pensamentos de todos os filósofos, Que as cousas sejam realmente o que parecem ser E não haja nada que compreender.”

(O mistério das cousas, O Guardador de Rebanhos, poema XXXIX)

 

Outro personagem é Ricardo Reis, que nasceu às 11:00 do dia 28 de janeiro de 1914, foi discípulo de Alberto Caieiro, de quem adquiriu a lição de paganismo espontâneo. Ha informação dando conta de que teria embarcado para o Brasil em 12 de outubro de 1919. Era o heterônimo que desejava o impossível.

Esta figura interna é a que apresenta com uma maior rigidez de forma e de conteúdo. Ele possui uma expressão purista, abstrata e quase analítica. È o papel mais complexo dentre as suas figuras internas. Anacoreta, ele privilegia os gêneros neoclássicos altamente elaborados, como a epigrama, a elegia e a ode. Ele representa uma rara composição de esteta estóico da qual a perfeição dos poemas curtos procura a tranquila resignação diante do destino.

È a figura interna com o mais baixo grau de espontaneidade. Tende a interpretar e ser reduzionista da verdade como nos versos de “Não só quem nos odeia e nos inveja”. Nestes versos o personagem apresenta a sua tendência ao maniqueísmo. São representações belas e muito elaboradas. A escarça espontaneidade é fruto do papel rígido, cheio das “conservas culturais” típicas do estoicismo, e se transformou na origem deste reducionismo, deste maniqueísmo, da elaboração precisa da forma e do conteúdo. Fernando Pessoa chega a dizer que ele é um semi-heterônimo, porque sua personalidade não é muito diferente da sua, mas uma mutilação dela. “Sou eu menos o raciocínio e a emotividade”, completou.

“Ninguém a outro ama, senão que ama O que de si há nele, ou é suposto. Nada te pese que não te amem. Sentem-te Quem és, e és estrangeiro. Cura de ser quem és, amam-te ou nunca. Firme contigo, sofrerás avaro De penas.”

(Ninguém a Outro Ama)

 

“Não só quem nos odeia ou nos inveja Nos limita e oprime; quem nos ama Não menos nos limita. Que os deuses me concedam que, despido De afetos, tenha a fria liberdade Dos píncaros sem nada. Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada É livre; quem não tem, e não deseja, Homem, é igual aos deuses.”

(Não so quem nos odeia e nos inveja)

 

A ultima figura interna é Álvaro di Campos. Sua visão frequentemente se confunde com aquela assinada por Fernando Pessoa. È a sua figura interna pragmática, não idealista. Este personagem nasceu em 15 de outubro de 1889. Engenheiro, inquieto e sensacionista, representam a parte mais audaciosa de Pessoa.

Álvaro de Campos compõe versos livres e irreverentes em relação ao português clássico e casto. Ele se livra do conservadorismo linguístico e poéticos e pode se exprimir com grande espontaneidade. Se Alberto Caieiro representou o Eu-observador de Pessoa, Álvaro de Campos foi o seu Eu ator.

Álvaro de Campos, como Fernando Pessoa, tem uma visão apaixonada da realidade concreta. Enquanto Caieiro cultiva a abstinência e a introspecção filosófica, Álvaro de Campos é um galante homem peregrino.

 

“Depus a máscara e vi-me ao espelho. — Era a criança de há quantos anos. Não tinha mudado nada… É essa a vantagem de saber tirar a máscara. É-se sempre a criança, O passado que foi A criança. Depus a máscara, e tornei a pô-la. Assim é melhor, Assim sem a máscara. E volto à personalidade como a um términus de linha.”

(Depus a Mascara)

 

Diante de uma crítica provocatória, e catalisada pela espontaneidade deste seu personagem, respondia com a criatividade do seu mundo subjetivo. Não são versos elaborados, são expressões puras, reflexo deste grande estado de espontaneidade e criatividade.

“Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

(A Tabacaria)

 

A postura de Eu-ator, de Álvaro de Campos, deu à sua expressão uma conotação existencial, com o aproveitamento do que é possível de se extrair da emoção.

 

Fernando Pessoa, quando assina como Fernando Pessoa, é muito intuitivo e se apresenta claramente como um Eu-ator cheio de vida. Ele mesmo apresenta as cinco condições ou qualidades para ter acesso ao seu código de ligação entre os símbolos e os significados que possuem para ele: a simpatia, a intuição, a inteligência, a compreensão e a graça. Mas deixando de lado uma discussão do que poderia significar para cada um de nós estas qualidades (ou condições), não é difícil perceber que são predominantemente ligados à ação, à sensação, e pouco à reflexão se consideramos que apenas a compreensão poderia necessitar do momento reflexivo.

“Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração.”

(Cancioneiro, Dizem que finjo ou minto)

 

“Temos, todos que vivemos, Uma vida que é vivida E outra vida que é pensada, E a única vida que temos É essa que é dividida Entre a verdadeira e a errada.”

(Cancioneiro, Tenho Tanto Sentimento)

 

Pessoa muitas vezes, como Eu-ator, usa uma linguagem hermenêutica para traduzir numa linguagem poética, a linguagem conflitual que existe entre as diferentes figuras que coabitam no seu mundo interno. É criativo, mas a sua espontaneidade não chega no nível de Álvaro de Campos, e isto deve-se a não ter conseguido se liberar da ansiedade como o fez Álvaro de Campos. A sua ansiedade é provocada pelos seus conflitos internos, pela dificuldade em fazer dialogar os extremos que coabitam em seu interior, e é presente em muitas passagens de suas poesias:

“De quem é o olhar Que espreita por meus olhos? Quando penso que vejo, Quem continua vendo Enquanto estou pensando ? Por que caminhos seguem, Não os meus tristes passos, Mas a realidade De eu ter passos comigo ?

 

Às vezes, na penumbra Do meu quarto, quando eu Por mim próprio mesmo Em alma mal existo,”

(Cancioneiro, De quem é o olhar)

 

Como um comentário final, podemos dizer que o poeta Fernando Pessoa, talvez como nenhum outro, conseguiu exprimir a complexidade da alma humana, servindo-se para isto de suas figuras internas que denominou heterônimos.

Cada uma delas via o homem e o mundo com a sua visão particular, mas apresentado diversos pontos em comum como era de se esperar. Era como se o mundo interno de Pessoa, para usar a Concepção Funcional do Self, se apresentasse com configurações diversas sem perder a sua integridade e sentido de continuidade.

Num breve resumo, podemos apresentar estas configurações desta forma:

Alberto Caieiro se comporta como seu Eu-observador. A espontaneidade não é elevada porque, como observador e, frequentemente usando uma metalinguagem para se exprimir, fica vinculado a determinadas regras.

Ricardo Reis vê o homem e o mundo de uma maneira reducionista. A espontaneidade desaparece sob um maniqueismo dominante. Ele se coloca como um juiz separado dos temas que expõe.

Álvaro de Campos representa o seu Eu-ator. Esta figura rompe seja o conservadorismo linguístico como aquele de manifestação conceitual, naquilo que foi considerado como uma colaboração ao futurismo da literatura portuguesa. Ele representa o ápice da espontaneidade de Fernando Pessoa, e muito provavelmente por esta razão, pertencem a esta sua figura interna, as poesias mais conhecidas e amadas de toda a sua obra.

Fernando Pessoa vê o homem e o mundo segundo approchs diferentes destas três configurações internas da sua personalidade, mas que apresentadas separadamente nos torna mais fácil compreender a sua escolha fundacional.

Sérgio Rodrigues

Março 2003

 

Referências:

(1) G.Boria, Lo Psicodramma Classico, Franco Angelis.r.l, Milano, 1997, pg 29-30

(2) J.L.Moreno, Psychodrama First Volume, Beacon House, New York, pg 64

(3) S.Freud, The Ego and the Id, in: J.Strachey, Standard edition of the complete psychological works of Sigmund Freud, vol.19, pgs 3-63, Hogarht Press, London

(4) A.Freud, The Ego and the Mechanisms of Defence, in: The writings of Anna Freud, vol.11, pg 59, 1936, International University Press, New York

(5) J.L.Moreno, Who Shall Survive? Beacon House, 1934, pg 329

(6) E.Goffman, The presentation of Self in Everyday Life, Dobleday, New York, 1959

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Workshop sobre Técnicas do Psicodrama no atendimento de Casal e Família

15/02/2017

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Momento da turma de 2016

26/09/2016

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Empresas Familiares

09/09/2016

Sérgio Rodrigues

Este é um tema esquecido e que envolve tantas empresas e tantas famílias. Talvez porque as relações destes dois sistemas envolvam conhecimentos e profissionalidade das áreas da psicologia e do management. São dois sistemas que se sobrepõem e que podem gerar bons resultados ou conflitos indesejáveis para ambos os sistemas.

Por isto mesmo chama a atenção o fato de que as relações condicionantes entre pais, filhos e irmãos no âmbito de uma empresa familiar se encontre tão desprovida de um suporte profissional que os possa ajudar. Isto talvez seja a razão de porque “as estatísticas demostram que a maioria das empresas familiares, em todo o mundo, não conseguem atingir a transição para a 3ª geração[1].

O SEBRAE/SC estima que no Brasil 90% das empresas são familiares. Em um artigo encontrado no site:

http://www.sebrae-sc.com.br/newart/default.asp?materia=10410 ele é finalizado com estas considerações:

Considera-se que 70% das empresas familiares encerram suas atividades com a morte de seu fundador; e o ciclo médio destas empresas é de 24 anos. E que, dos 30% que sobrevivem na segunda geração, só uma minoria perdura até a terceira geração.

Porquê isto acontece?

Por que as “consultorias” já disponíveis não conseguem reverter este quadro estático mundial?

Poderíamos fazer muitas perguntas, mas vamos tentar entender estas duas aqui colocadas porque representam muito bem este quadro.

O primeiro ponto a se ter em mente é que uma família é um sistema composto pelos seus elementos (membros da família), pelos atributos dos elementos (seus valores, seus comportamentos) e pelas relações (interações através dos processos de comunicação) que integram e mantêm o sistema.

Os casais e as famílias são sistemas abertos e, por isto, sofrem interações com o ambiente onde estão inseridos. Desta forma, a interação gera realimentações que podem ser positivas ou negativas, criando assim uma auto regulação regenerativa, que por sua vez cria novas propriedades que podem ser benéficas ou maléficas para o todo independentemente das partes.

Vou colocar de uma maneira ilustrada esta integração de diferentes sistemas e heranças tão diferentes que acabam convivendo e interagindo num ambiente de um casal e de uma família.

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Como se pode ver, todos os membros deste sistema familiar estão em “relação” e interação com outros sistemas e outros ambientes.

Para se entender e poder ajudar as pessoas, os casais ou as famílias – como tudo na vida – não devemos excluí-los do mundo em que vivem. As relações com este mundo externo é que vai contribuindo para a construção, estabilização ou desestabilização de seus respectivos mundos internos. Os vínculos que existem em um casal ou em uma família vão sendo construídos através do processo de comunicação desenvolvido através destas relações.

Se olharmos para o que é uma empresa vamos perceber que ela também é um sistema com seus elementos, com seus atributos e suas relações. O sistema empresarial não só está inserido em um sistema comercial altamente competitivo como também desenvolve suas atividades num ambiente nem sempre facilitador ou acolhedor. Não vou me alongar fazendo uma representação gráfica do sistema empresarial, mas tomando-se como referência a representação gráfica do sistema familiar é só considerar que também existem elementos (em número muito maior), existem atributos e existem relações que mantêm o sistema e sua relação com os sistemas do ambiente comercial.

Que dificuldades, que desafios e que armadilhas vão se estabelecendo no desenvolvimento das empresas familiares para colocá-las neste nível de risco?

Toda empresa familiar corre os mesmos riscos de sobrevivência em um mercado competitivo que uma empresa não-familiar, mas soma-se a estes riscos a convivência de dois sistemas distintos: o sistema familiar e o sistema empresarial.

A convivência destes dois sistemas diferentes cria constantemente a superposições de papéis: o papel profissional e o papel familiar. Quando esta convivência intersistêmica funciona bem ela pode ser uma mola propulsora do sucesso da organização, mas quando à confusão dos papéis se somam às dinâmicas familiares, isto traz efeitos indesejáveis para a organização.

Além disto a família-empresa passará inexoravelmente por momentos cruciais à sua sobrevivência. Um dos mais decisivos é a transição da liderança da empresa, ou seja, quando se deve substituir o pai como CEO (chief executive officer). Este talvez seja o maior de todos os riscos de uma empresa familiar.

Esta é uma convivência intersistêmica diferente do que ocorre numa empresa não familiar.

Não é simples e muito menos fácil para estas famílias e para suas empresas se questionarem e administrarem estas áreas de conflitos potenciais, principalmente quando crises de mercado ameaçam a rentabilidade da empresa ou quando surgem tensões no interior do sistema familiar.

Por mais que o CEO seja profissionalmente preparado, ele faz parte do sistema e não conseguirá encontrar saídas. Isto é necessário porque normalmente um sistema não consegue se automodificar pela ação de um dos seus elementos. Uma vez estabelecido um padrão de funcionamento do sistema ele só se modificará por estímulo externo.

Vou usar uma metáfora para justificar o que estou dizendo.

Imagine uma pessoa que está tendo um pesadelo. Ela pode fazer muitas coisas no seu sonho: correr, esconder, lutar, gritar, saltar de um precipício, etc., mas nenhuma modificação de qualquer um destes comportamentos, passando por exemplo de correr a lutar, poria fim ao pesadelo. O único modo de sair de um sonho implica na mudança do sistema do sonho para o sistema de vigília (acordar). O sistema de vigília (estar acordado) não faz parte do sonho, mas é uma mudança para um estado completamente diferente.

Este é o motivo de porquê um CEO de uma empresa familiar, que começa a perceber riscos em seu percurso, deve buscar uma ajuda especializada que esteja fora deste específico sistema família/empresa.

Como reduzir então os riscos de que certos conflitos familiares-empresariais evoluam para desentendimentos desestabilizadores? Isto requer uma ajuda externa que não esteja comprometida pelo envolvimento emocional das relações familiares-empresariais. Daí passamos para a segunda pergunta: por que as “consultorias” já disponíveis não conseguem reverter este quadro estático mundial?

O problema que vemos em todo o mundo é que existe uma tendência a se buscar consultorias com conhecimento mais direcionado para a área empresarial. Algumas delas (não muitas) possuem até uma certa sensibilidade para aspectos psicológicos, mas isto não é suficiente.

A ajuda só consegue ser eficaz se a consultoria possuir duas especializações que se completam. A primeira é o suporte psicológico à família empresária e o segundo é a orientação e suporte empresarial através de consultorias especializadas.

Einstein já assinalava esta interligação dos problemas:

Um erro comum é imaginar que podemos resolver “todos” os problemas dividindo-os em partes e observando o que está falhando. Isto pode nos distanciar das relações entre as partes onde pode residir a real causa ou fatores que contribuem para o problema. Um raciocínio convencional (reducionista) é reduzir o problema a “isto” ou “aquilo”, enquanto o pensamento sistêmico define “isto e aquilo”.

O suporte psicológico à família empresária normalmente não é um processo longo, mas tem como principais objetivos identificar as dinâmicas familiares presentes, o auxílio à correta identificação dos papéis familiares e profissionais e propostas possíveis e necessárias.

Como são conhecimentos muito específicos e complexos, as sessões de terapia são conduzidas por uma terapeuta de casal/família com um co-terapeuta com especialização em gestão empresarial e com uma base de conhecimentos em psicologia. Desta forma, como disse Einstein evita-se o “isto” ou “aquilo” e trabalha-se com o “isto e aquilo”.

É importante deixar claro que numa sessão de terapia de uma família empresarial o objetivo é identificar e clarear que dinâmicas estão influenciando reciprocamente o sistema familiar-empresarial. A terapia dos componentes familiares de uma empresa familiar não entra nos aspectos técnicos administrativos, que devem ser orientados por uma consultoria específica, mas a presença do co-terapeuta ajuda a clarear alguns valores e relações específicos do mundo empresarial. Este clareamento integrado não separa “isto” “daquilo”, mas ajuda na identificação dos problemas e nos encaminhamentos que se deve dar.

Eventualmente este processo pode ser seguido por uma orientação para um suporte psicológico individual (se for o caso) e/ou uma assessoria empresarial que seja adequada às características daquela empresa.

Esta é forma como vejo o trabalho com as empresas familiares, devendo ser focada em dois pontos distintos, mas associados em íntimo envolvimento entre eles:

  1. Consultoria sobre os aspectos práticos de gestão, de mercado, de configuração administrativa, de gestão financeira e de divulgação além dos recursos humanos. São áreas intimamente ligadas à estrutura da empresa.
  2. Dinâmica da relação entre os sócios. Que que fatores psicológicos, dinâmicas pessoais entre os familiares/sócios estão sendo acionadas para dirigir esta empresa. Muitas vezes a empresa tem toda parte administrativa adequada, mas os sócios entram com posturas nas decisões e na gestão que levam a empresa à ter problemas.

Um exemplo disto: Um casal de empresários, que por suas características impulsivas tomam decisões importantes antes de uma avaliação adequada e não assumem limitações e responsabilidades quando algo não deu certo. Um reconhece isto no outro, mas por receio de “magoar” não questiona e interrompe um ciclo de projetos malsucedidos.

Entendo, portanto, que este trabalho seja o de diagnosticar tanto o aspecto administrativo como o relacional entre os membros familiares envolvidos.

 

[1] Ciclo de vida da empresa familiar, Exame.com, http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/blog-do-management/2013/11/06/ciclo-de-vida-da-empresa-familiar/


Divórcio após 50 anos – Entrevista à revista Absoluta de Campinas (SP)

07/09/2016

Esta reportagem saiu na edição 120 da Revista Absoluta da cidade de Campinas (SP) e faz  algumas considerações sobre as separações após 50 anos.

O site da Absoluta é: http://www.absoluta.com.br/ e nele se pode acessar a revista clicando sobre ela no site ou diretamente: http://www.absoluta.com.br/revistas/absoluta/120/

A entrevista está a seguir:

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Workshop: Técnicas do Psicodrama na Terapia de Casal e Família

07/09/2016

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GRUPO DE ESTUDOS DA ANÁLISE PSICODRAMÁTICA

08/11/2015

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Grupo de Estudos da Análise Psicodramática

Caros colegas

Em fevereiro de 2017 iniciaremos um novo grupo de estudos sobre a teoria e prática de atendimento clínico.

Este grupo de estudos destina-se aos profissionais da área de humanas (médicos, psicólogos, alunos de medicina e psicologia e interessados).

Este grupo de estudos é de Introdução a Análise Psicodramática é mais voltado à atividade clínica no atendimento Individual, de Família e Casal.

A Análise Psicodramática é uma teoria desenvolvida por Victor R.C.S. Dias a partir de algumas técnicas e conceitos da Teoria Psicodramática e sua interligação com a Neurociência. É uma teoria que sistematiza e clareia vários conceitos teóricos e práticos que são eficientes e úteis na compreensão e prática de um processo terapêutico.

Os 10 encontros deste grupo serão aos sábados nos horários das 9 às 12 e das 14 às 17 horas.

Na primeira parte do dia (manhã) será um estudo da teoria e na parte da tarde, supervisão de clientes com fundamentação teórica das dinâmicas apresentadas, prática das técnicas da Análise Psicodramática e desenvolvimento do papel do terapeuta.

Quem tiver interesse, favor enviar nome, formação e endereço para o e-mail maria.lucia.coelho@terra.com.br.

 Programa do curso de introdução à Análise Psicodramática –> As datas serão informadas em Novembro próximo

Duração: 10 (dez) etapas de 6 horas, aos sábados das 9:00 às 12:00 e das 14:00 às 17:00 horas.

1ª Etapa –  fevereiro

Parte Teórica

  • Histórico do Psicodrama
  • Teoria da Programação Cenestésica

Parte Prática

  •  Contexto dramático, montagem de cena, tomada de papel e entrevista dos Personagens.
  • Supervisão

2ª Etapa – março

Parte Teórica

  • Formação dos Modelos Ingeridor e Defecador

Parte Prática

  • Entrevista de Personagem
  • Técnica do Psicodrama
  • Espelho
  • Supervisão

3ª Etapa – abril

Parte Teórica

  • Formação do Modelo de Urinador
  • Narcisismo

Parte Prática

  • Técnicas de Espelhos e Cenas de Descarga
  • Supervisão

4ª Etapa – maio

Parte Teórica

  • Fechamento da formação da Fase Cenestésica
  • Modelos de Ingeridor, Defecador e Urinador
  • Áreas corpo, ambiente e mente.
  • Fase Psicológica
  • Vínculo compensatório.

Parte Prática

  • Treino de Atendimento e Técnicas de Espelho e Cena de descarga
  • Supervisão

5ª Etapa – junho

Parte Teórica

  • Fase Psicológica
  • Desenvolvimento do Psiquismo: Conceito de Identidade

Parte Prática

  • Átomo Familiar e Átomo de Crise

6ª Etapa – julho

Parte Teórica

  • Discurso do Ingeridor
  • Psicopatologia do Ingeridor
  • Defesas Conversiva, histéricas, fóbica, contra fóbica e psicopática.

Parte Prática

  • Entrevista Inicial
  • Ancoragem e Clima Terapêutico

7ª Etapa – agosto

Parte Teórica

  • Psicopatologia do Defecador
  • Discurso do Defecador
  • Defesa de Ideia Depressiva e Atuação

Parte Prática

  • Supervisão
  • Treino de Atendimento

8ª Etapa – setembro

Parte Teórica

  • Psicopatologia do Urinador
  • Discurso do Urinador
  • Defesas de Ideias Obsessivas e Rituais Compulsivos

Parte Prática

  • Supervisão

9ª Etapa – outubro

  • Parte Teórica
  • A Análise Psicodramática na Terapia de Casal e Família

Parte Prática

  • Supervisão e Técnicas de Atendimento

10ª Etapa – novembro

Parte Teórica

  • Fases da Terapia
  • Vínculos Compensatórios
  • Divisões Internas

Parte Prática

  • Revisão Teórica e Supervisão

 

NUCLEO DE ESTUDOS EM PSICOLOGIA

Professora: Maria Lucia Mendonça Coelho

Preço: 10 parcelas R$ 300,00

Horário de aulas:

Sábado de manhã– das 09:00 às 12:00

Sábado à tarde – das 14:00 às 17:00

Local: Rua Paulo Cesar Fidelis 39, sala 516

Inscrição: 100,00 reais a ser descontado na 1ª etapa.

Fone: (19) 98204 0455

E-mail: maria.lucia.coelho@terra.com.br

 

Um momento do Grupo de Estudos 2015

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