Eu Ator e Eu Observador

27/02/2017

Este exercício nasceu de duas motivações: agrupar algumas considerações sobre os papéis denominados Eu-ator e Eu-observador, e na aplicação destes conceitos na análise fundacional de algum autor ou obra publicada.

Fugindo um pouco do tipo de autor ou obra normalmente escolhidos para este tipo de exemplificação, eu escolhi os heterônimos de Fernando Pessoa.

Os termos Eu-ator e Eu-observador são usados normalmente no psicodrama para focalizar esta bipolaridade intrapsíquica. O termo Eu-observador designa aquela parte do Eu que governa as funções perceptivas e de discriminação, tornando a pessoa testemunha de si mesmo no mundo; esta parte, que pertence à parte consciente, estaria livre de ambivalência, de distorções e indecisões (1). Moreno denomina esta polaridade como “observador interno” (2). A outra polaridade, a do Eu-ator, é aquela responsável pela ação como o próprio nome induz.

É importante recordar que a ação pura existe somente em casos limites, assim como a reflexão pura, mas que no momento em que esta reflexão vem verbalizada ou escrita, passa a ter também uma componente de ação. Neste exercício, será possível identificar figuras internas cujo aspecto é tendencialmente aquele da ação, ou aquele da observação.

No nosso cotidiano, vamos encontrar a prevalência da ação nas atividades de rotina com a repetição de ações estereotipadas que não requerem, alias, excluem a reflexão. Somente quando alguma coisa não funciona nestas rotinas è que a reflexão é acionada. Está presente também nas explosões de cólera, onde prevalece a ação quase exclusiva sobre a reflexão. Seria o Eu-ator em pleno desempenho.

Uma outra situação é aquela da concentração exclusiva sobre um objeto, ocupando inteiramente a capacidade de concentração da atenção da pessoa, e tornando difícil a possibilidade de se destacar, de ver-se de fora e, sobretudo de perceber um antes e um depois. É um ser absorto com alguma coisa que não é a própria Gestalt de referência, isto é, o contesto no qual se encontra. Observar-se é o sair fora de si, para poder se ver. O comportamento como Eu-observador não deve ser confundido com uma atitude reflexiva, mas é um destacar-se e observar-se no contesto da ação. Tal situação é intencionalmente provocada nas sessões de psicodrama.

Durante uma seção o psicodramatista leva o protagonista (ou paciente) a colocar-se nas duas polaridades, ou seja, como ator e como observador. Na primeira polaridade ele reexperimenta o registro da vivência, e na segunda ele tem a possibilidade de observar-se e observar o contexto, podendo assim interiorizar (memorizar) a vivência de uma maneira mais clara e integrada.

S.Freud assinala esta importante faculdade: “o Eu pode considerar a si próprio como objeto, pode tratar a si próprio como um objeto qualquer, isto é, observar-se e criticar-se”. (3) Sua filha, Anna Freud, faz um comentário no mesmo sentido: “Me convenci que o separar uma função observadora do resto do Eu poderia constituir uma característica habitual da estrutura do Eu”. (4)

A auto-observação nos vários papéis serve para ampliar a autoconsciência e o autocontrole. A ação propriamente dita não possui uma localização no tempo, pois o tempo para ela é somente aquele no qual ela se desenvolve. A possibilidade de se observar e refletir permite inseri-la numa sequência de tempo.

J.L.Moreno atribui a esta polaridade Eu-ator e Eu observador, uma importante função do desenvolvimento intrapsíquico. Ele chega a assinalar a existência de centros que define como “centro da ação e centro do conteúdo”. Esta hipótese é justificada por Moreno, através do processo de memorização que utiliza dois diferentes percursos neurológicos, e por isto, não poder se apresentar simultaneamente. Segundo ele, a importância da função do participante interno (Eu-observador) é permitir a memorização do vivido na ação.

Moreno acena então com a possibilidade de conceber no individuo uma cisão entre a “personalidade da ação” e a “personalidade conceitual”. (5) Tal impostação conceitual nos leva a definir os dois papéis: Eu-ator e Eu-observador.

Feita a distinção acima entre o observar e o refletir, acho igualmente importante dar à expressão Eu-ator, a conotação que possui dentro do psicodrama.

Diferentemente da concepção de Goffman (6), que é aquela investidura do individuo que serve para sustentar o personagem da representação enquanto esta ocupado em sustentar uma certa definição da realidade, o ator psicodramático não aparece, mas se manifesta, deixando transportar-se nos territórios da semirealidade, com o temor e ao mesmo tempo o desejo de reconhecer as próprias emoções. A concepção clássica de ator se aplica mais adequadamente àquilo que no psicodrama seria o eu-auxiliar da pessoa, isto é, que num certo momento tem o compito de encarnar certo papel (como indicado pelo protagonista ou pelo diretor), no melhor de sua capacidade expressiva.

O ator Goffmaniano é aquele da vida cotidiana, na qual a pessoa é obrigada a esconder-se e a fabricar aparências, enquanto no palco cênico Moreniano, o ator se entrega nas mãos do diretor e confia na aceitação dos colegas, para poder ser e encontrar-se.

Do ponto de vista do psicodrama, o Observador que funciona bem é aquele que utiliza a conceituação de forma dialógica relativamente ao que o Ator está vivendo naquele contesto. Quando tal relação dialógica não está bem desenvolvida, podemos ter a predominância da reflexão sobre a observação.

*********************

Fernando Pessoa nasceu em Lisboa em 13 de junho de 1888, e imediatamente após a morte do pai em 1894, começou a criar os heterônimos – pessoas imaginárias para povoar o teatro íntimo do seu Eu.

Em 1914 começa a escrever usando o seu primeiro heterônimo: Alberto Caieiro. A criatividade irrefreável do seu mundo interior se manifestará também através da personalidade de Ricardo Reis, e naquela de manifestação oposta, ou seja, de Álvaro de Campos.

Alberto Caieiro emerge como uma figura dominante em relação à de Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Fernando Pessoa sentia estas suas figuras internas como vivas e acabou dando-lhes uma biografia. Alberto Caieiro da Silva nasceu em Lisboa, em abril de 1889, e faleceu na mesma cidade em 1915. Passou quase toda a sua vida numa quinta do Ribatejo, voltando a Lisboa no final da vida, da qual alias, não ha o que narrar, sua vida e suas observações reflexivas se confundem.

Alberto Caieiro propõe uma poesia de inspiração inesperada, é uma linguagem discursiva que, às vezes, apresenta alguns lapsus. É agnóstico e deseja anular a morte negando a consciência. A sua postura é de um paganismo existencial. Caieiro é considerado o heterônimo que não deseja nada. E’ o filosofo dos heteronomios.

“O único sentido íntimo das cousas

É elas não terem sentido íntimo nenhum.

 

Não acredito em Deus porque nunca o vi.

Se ele quisesse que eu acreditasse nele,

Sem dúvida que ele viria falar comigo

E entraria pela minha porta dentro

(O guardador de Rebanhos, poema V, O que penso do mundo)

 

Mas o ponto mais interessante da sua poesia, alem de declarar uma objetividade absoluta, è aquele de interrogar-se com irrefutável inocência sobre a generalização do significado dos simbolos. Reconhece que a ligação entre o significante e o significado é feita pelo código interno de cada um. É um observador reflexivo que se utiliza de uma metalinguagem para se exprimir.

“O universo não é uma idéia minha,

A minha idéia do universo é que é idéia minha”

(Poemas inconjuros, O universo não é idéia minha, 01.10.1917)

 

“Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento, Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade, Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada. Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada. Assim tudo o que existe, simplesmente existe. O resto é uma espécie de sono que temos, infância da doença. Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.”

(Poemas inconjuros, Assim como, 01.10.1917)

 

Alberto caieiro assume desta forma um papel de destaque, come o Eu-observador de Pessoa. Ele não é participante das ações. O seu papel é aquele de descrever o que observa e interpreta da realidade. A sua visão do mundo é que as coisas já estão aqui na sua plenitude, e que o homem vê somente aquilo que os outros o ensinaram a ver. Este personagem interno se coloca como um crítico daquela forma de interpretação que Moreno atribuiu como determinada pelas “conservas culturais”, ou seja, interpretações que herdamos na nossa formação. E.Kant já dizia: “Das coisas, nós conhecemos aquilo che colocamos nelas”.

“Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas, Rio como um regato que soa fresco numa pedra.

 

Porque o único sentido oculto das cousas É elas não terem sentido oculto nenhum, É mais estranho do que todas as estranhezas E do que os sonhos de todos os poetas E os pensamentos de todos os filósofos, Que as cousas sejam realmente o que parecem ser E não haja nada que compreender.”

(O mistério das cousas, O Guardador de Rebanhos, poema XXXIX)

 

Outro personagem é Ricardo Reis, que nasceu às 11:00 do dia 28 de janeiro de 1914, foi discípulo de Alberto Caieiro, de quem adquiriu a lição de paganismo espontâneo. Ha informação dando conta de que teria embarcado para o Brasil em 12 de outubro de 1919. Era o heterônimo que desejava o impossível.

Esta figura interna é a que apresenta com uma maior rigidez de forma e de conteúdo. Ele possui uma expressão purista, abstrata e quase analítica. È o papel mais complexo dentre as suas figuras internas. Anacoreta, ele privilegia os gêneros neoclássicos altamente elaborados, como a epigrama, a elegia e a ode. Ele representa uma rara composição de esteta estóico da qual a perfeição dos poemas curtos procura a tranquila resignação diante do destino.

È a figura interna com o mais baixo grau de espontaneidade. Tende a interpretar e ser reduzionista da verdade como nos versos de “Não só quem nos odeia e nos inveja”. Nestes versos o personagem apresenta a sua tendência ao maniqueísmo. São representações belas e muito elaboradas. A escarça espontaneidade é fruto do papel rígido, cheio das “conservas culturais” típicas do estoicismo, e se transformou na origem deste reducionismo, deste maniqueísmo, da elaboração precisa da forma e do conteúdo. Fernando Pessoa chega a dizer que ele é um semi-heterônimo, porque sua personalidade não é muito diferente da sua, mas uma mutilação dela. “Sou eu menos o raciocínio e a emotividade”, completou.

“Ninguém a outro ama, senão que ama O que de si há nele, ou é suposto. Nada te pese que não te amem. Sentem-te Quem és, e és estrangeiro. Cura de ser quem és, amam-te ou nunca. Firme contigo, sofrerás avaro De penas.”

(Ninguém a Outro Ama)

 

“Não só quem nos odeia ou nos inveja Nos limita e oprime; quem nos ama Não menos nos limita. Que os deuses me concedam que, despido De afetos, tenha a fria liberdade Dos píncaros sem nada. Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada É livre; quem não tem, e não deseja, Homem, é igual aos deuses.”

(Não so quem nos odeia e nos inveja)

 

A ultima figura interna é Álvaro di Campos. Sua visão frequentemente se confunde com aquela assinada por Fernando Pessoa. È a sua figura interna pragmática, não idealista. Este personagem nasceu em 15 de outubro de 1889. Engenheiro, inquieto e sensacionista, representam a parte mais audaciosa de Pessoa.

Álvaro de Campos compõe versos livres e irreverentes em relação ao português clássico e casto. Ele se livra do conservadorismo linguístico e poéticos e pode se exprimir com grande espontaneidade. Se Alberto Caieiro representou o Eu-observador de Pessoa, Álvaro de Campos foi o seu Eu ator.

Álvaro de Campos, como Fernando Pessoa, tem uma visão apaixonada da realidade concreta. Enquanto Caieiro cultiva a abstinência e a introspecção filosófica, Álvaro de Campos é um galante homem peregrino.

 

“Depus a máscara e vi-me ao espelho. — Era a criança de há quantos anos. Não tinha mudado nada… É essa a vantagem de saber tirar a máscara. É-se sempre a criança, O passado que foi A criança. Depus a máscara, e tornei a pô-la. Assim é melhor, Assim sem a máscara. E volto à personalidade como a um términus de linha.”

(Depus a Mascara)

 

Diante de uma crítica provocatória, e catalisada pela espontaneidade deste seu personagem, respondia com a criatividade do seu mundo subjetivo. Não são versos elaborados, são expressões puras, reflexo deste grande estado de espontaneidade e criatividade.

“Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

(A Tabacaria)

 

A postura de Eu-ator, de Álvaro de Campos, deu à sua expressão uma conotação existencial, com o aproveitamento do que é possível de se extrair da emoção.

 

Fernando Pessoa, quando assina como Fernando Pessoa, é muito intuitivo e se apresenta claramente como um Eu-ator cheio de vida. Ele mesmo apresenta as cinco condições ou qualidades para ter acesso ao seu código de ligação entre os símbolos e os significados que possuem para ele: a simpatia, a intuição, a inteligência, a compreensão e a graça. Mas deixando de lado uma discussão do que poderia significar para cada um de nós estas qualidades (ou condições), não é difícil perceber que são predominantemente ligados à ação, à sensação, e pouco à reflexão se consideramos que apenas a compreensão poderia necessitar do momento reflexivo.

“Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração.”

(Cancioneiro, Dizem que finjo ou minto)

 

“Temos, todos que vivemos, Uma vida que é vivida E outra vida que é pensada, E a única vida que temos É essa que é dividida Entre a verdadeira e a errada.”

(Cancioneiro, Tenho Tanto Sentimento)

 

Pessoa muitas vezes, como Eu-ator, usa uma linguagem hermenêutica para traduzir numa linguagem poética, a linguagem conflitual que existe entre as diferentes figuras que coabitam no seu mundo interno. É criativo, mas a sua espontaneidade não chega no nível de Álvaro de Campos, e isto deve-se a não ter conseguido se liberar da ansiedade como o fez Álvaro de Campos. A sua ansiedade é provocada pelos seus conflitos internos, pela dificuldade em fazer dialogar os extremos que coabitam em seu interior, e é presente em muitas passagens de suas poesias:

“De quem é o olhar Que espreita por meus olhos? Quando penso que vejo, Quem continua vendo Enquanto estou pensando ? Por que caminhos seguem, Não os meus tristes passos, Mas a realidade De eu ter passos comigo ?

 

Às vezes, na penumbra Do meu quarto, quando eu Por mim próprio mesmo Em alma mal existo,”

(Cancioneiro, De quem é o olhar)

 

Como um comentário final, podemos dizer que o poeta Fernando Pessoa, talvez como nenhum outro, conseguiu exprimir a complexidade da alma humana, servindo-se para isto de suas figuras internas que denominou heterônimos.

Cada uma delas via o homem e o mundo com a sua visão particular, mas apresentado diversos pontos em comum como era de se esperar. Era como se o mundo interno de Pessoa, para usar a Concepção Funcional do Self, se apresentasse com configurações diversas sem perder a sua integridade e sentido de continuidade.

Num breve resumo, podemos apresentar estas configurações desta forma:

Alberto Caieiro se comporta como seu Eu-observador. A espontaneidade não é elevada porque, como observador e, frequentemente usando uma metalinguagem para se exprimir, fica vinculado a determinadas regras.

Ricardo Reis vê o homem e o mundo de uma maneira reducionista. A espontaneidade desaparece sob um maniqueismo dominante. Ele se coloca como um juiz separado dos temas que expõe.

Álvaro de Campos representa o seu Eu-ator. Esta figura rompe seja o conservadorismo linguístico como aquele de manifestação conceitual, naquilo que foi considerado como uma colaboração ao futurismo da literatura portuguesa. Ele representa o ápice da espontaneidade de Fernando Pessoa, e muito provavelmente por esta razão, pertencem a esta sua figura interna, as poesias mais conhecidas e amadas de toda a sua obra.

Fernando Pessoa vê o homem e o mundo segundo approchs diferentes destas três configurações internas da sua personalidade, mas que apresentadas separadamente nos torna mais fácil compreender a sua escolha fundacional.

Sérgio Rodrigues

Março 2003

 

Referências:

(1) G.Boria, Lo Psicodramma Classico, Franco Angelis.r.l, Milano, 1997, pg 29-30

(2) J.L.Moreno, Psychodrama First Volume, Beacon House, New York, pg 64

(3) S.Freud, The Ego and the Id, in: J.Strachey, Standard edition of the complete psychological works of Sigmund Freud, vol.19, pgs 3-63, Hogarht Press, London

(4) A.Freud, The Ego and the Mechanisms of Defence, in: The writings of Anna Freud, vol.11, pg 59, 1936, International University Press, New York

(5) J.L.Moreno, Who Shall Survive? Beacon House, 1934, pg 329

(6) E.Goffman, The presentation of Self in Everyday Life, Dobleday, New York, 1959


Workshop sobre Técnicas do Psicodrama no atendimento de Casal e Família

15/02/2017

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Momento da turma de 2016

26/09/2016

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Workshop: Técnicas do Psicodrama na Terapia de Casal e Família

07/09/2016

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GRUPO DE ESTUDOS DA ANÁLISE PSICODRAMÁTICA

08/11/2015

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Grupo de Estudos da Análise Psicodramática

Caros colegas

Em fevereiro de 2017 iniciaremos um novo grupo de estudos sobre a teoria e prática de atendimento clínico.

Este grupo de estudos destina-se aos profissionais da área de humanas (médicos, psicólogos, alunos de medicina e psicologia e interessados).

Este grupo de estudos é de Introdução a Análise Psicodramática é mais voltado à atividade clínica no atendimento Individual, de Família e Casal.

A Análise Psicodramática é uma teoria desenvolvida por Victor R.C.S. Dias a partir de algumas técnicas e conceitos da Teoria Psicodramática e sua interligação com a Neurociência. É uma teoria que sistematiza e clareia vários conceitos teóricos e práticos que são eficientes e úteis na compreensão e prática de um processo terapêutico.

Os 10 encontros deste grupo serão aos sábados nos horários das 9 às 12 e das 14 às 17 horas.

Na primeira parte do dia (manhã) será um estudo da teoria e na parte da tarde, supervisão de clientes com fundamentação teórica das dinâmicas apresentadas, prática das técnicas da Análise Psicodramática e desenvolvimento do papel do terapeuta.

Quem tiver interesse, favor enviar nome, formação e endereço para o e-mail maria.lucia.coelho@terra.com.br.

 Programa do curso de introdução à Análise Psicodramática –> As datas serão informadas em Novembro próximo

Duração: 10 (dez) etapas de 6 horas, aos sábados das 9:00 às 12:00 e das 14:00 às 17:00 horas.

1ª Etapa –  fevereiro

Parte Teórica

  • Histórico do Psicodrama
  • Teoria da Programação Cenestésica

Parte Prática

  •  Contexto dramático, montagem de cena, tomada de papel e entrevista dos Personagens.
  • Supervisão

2ª Etapa – março

Parte Teórica

  • Formação dos Modelos Ingeridor e Defecador

Parte Prática

  • Entrevista de Personagem
  • Técnica do Psicodrama
  • Espelho
  • Supervisão

3ª Etapa – abril

Parte Teórica

  • Formação do Modelo de Urinador
  • Narcisismo

Parte Prática

  • Técnicas de Espelhos e Cenas de Descarga
  • Supervisão

4ª Etapa – maio

Parte Teórica

  • Fechamento da formação da Fase Cenestésica
  • Modelos de Ingeridor, Defecador e Urinador
  • Áreas corpo, ambiente e mente.
  • Fase Psicológica
  • Vínculo compensatório.

Parte Prática

  • Treino de Atendimento e Técnicas de Espelho e Cena de descarga
  • Supervisão

5ª Etapa – junho

Parte Teórica

  • Fase Psicológica
  • Desenvolvimento do Psiquismo: Conceito de Identidade

Parte Prática

  • Átomo Familiar e Átomo de Crise

6ª Etapa – julho

Parte Teórica

  • Discurso do Ingeridor
  • Psicopatologia do Ingeridor
  • Defesas Conversiva, histéricas, fóbica, contra fóbica e psicopática.

Parte Prática

  • Entrevista Inicial
  • Ancoragem e Clima Terapêutico

7ª Etapa – agosto

Parte Teórica

  • Psicopatologia do Defecador
  • Discurso do Defecador
  • Defesa de Ideia Depressiva e Atuação

Parte Prática

  • Supervisão
  • Treino de Atendimento

8ª Etapa – setembro

Parte Teórica

  • Psicopatologia do Urinador
  • Discurso do Urinador
  • Defesas de Ideias Obsessivas e Rituais Compulsivos

Parte Prática

  • Supervisão

9ª Etapa – outubro

  • Parte Teórica
  • A Análise Psicodramática na Terapia de Casal e Família

Parte Prática

  • Supervisão e Técnicas de Atendimento

10ª Etapa – novembro

Parte Teórica

  • Fases da Terapia
  • Vínculos Compensatórios
  • Divisões Internas

Parte Prática

  • Revisão Teórica e Supervisão

 

NUCLEO DE ESTUDOS EM PSICOLOGIA

Professora: Maria Lucia Mendonça Coelho

Preço: 10 parcelas R$ 300,00

Horário de aulas:

Sábado de manhã– das 09:00 às 12:00

Sábado à tarde – das 14:00 às 17:00

Local: Rua Paulo Cesar Fidelis 39, sala 516

Inscrição: 100,00 reais a ser descontado na 1ª etapa.

Fone: (19) 98204 0455

E-mail: maria.lucia.coelho@terra.com.br

 

Um momento do Grupo de Estudos 2015

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A TÉCNICA DA ESCULTURA NA TERAPIA DE CASAL

31/08/2014

Texto elaborado e organizado por Maria Lucia Mendonça Coelho

 Uma técnica interessante que dá ao protagonista (cliente) de um processo terapêutico a possibilidade de tornar perceptível, de maneira física, aquilo que ele sente dentro de si, é o que em Psicodrama se denomina concretização. Esta exteriorização de sentimentos coloca o protagonista em condições de tratar com eles em vez de apenas senti-los.

A concretização é possível porque o indivíduo, não dispondo somente das palavras para expressar o seu mundo interno, pode construir uma situação que “mostre” a sua vivência, utilizando o próprio corpo, o espaço em torno, os objetos e as relações com as pessoas presentes.

Freqüentemente é a conflituosidade psíquica que é concretizada. Desta maneira o espaço físico pode ser dividido em duas partes, cada uma representando uma parte do conflito. O protagonista pode se deslocar de uma parte para a outra, representando (desempenhando um papel ) ora um pólo, ora o outro, fazendo solilóquios, interrogando a outra parte, fornecendo respostas. Desta maneira ele dá integração e evidencia aquilo que dentro dele era consciente apenas parcialmente e que, de qualquer maneira, lhe parecia confuso.

A concretização tem uma clara possibilidade de aplicação quando o protagonista verbaliza metaforicamente a sua vivência. Ele pode dizer: “sinto que um muro me separa dos meus pais”. A concretização disto poderia se realizar, por exemplo, criando uma barreira física entre o protagonista (cliente) e os egos-auxiliares (co- terapeuta) que fazem o papel dos pais. Esta barreira poderia ser feita com qualquer coisa física que se opusesse objetivamente ao contato do protagonista com os pais. Uma inversão de papel do protagonista com a barreira física e uma “entrevista” a este último, poderia contribuir a aumentar a clareza sobre o que está acontecendo.

Na técnica da concretização também fazemos o uso da postura, isto é, de uma colocação particular do corpo no espaço, e que expresse de maneira plástica o sentimento do protagonista. Ela pode ser realizada pelo corpo do protagonista (cliente), por outro membro da família, pelo cônjuge ou pelo corpo do ego-auxiliar (co-terapeuta). No primeiro caso o protagonista é convidado a expressar o seu estado de espírito não com palavras (solilóquio, entrevista, etc), mas assumindo uma postura. Esta concretização torna evidente a vivência do protagonista (cliente) seja a quem conduz o trabalho (o terapeuta, ou outro profissional) como a quem assiste, como no caso de uma família ou de um casal.

Denomina-se escultura à concretização expressa, através do corpo dos egos-auxiliares, ao modo de perceber do protagonista. Este tipo de concretização é chamado de escultura por analogia ao trabalho do escultor, o qual deve dar forma e expressão ao material sobre o qual intervém.

Podemos também definir escultura como uma “expressão plástica simbólica da estrutura vincular de um sistema, obtida mediante a instrumentalização dos corpos de tal sistema – Lopez Barbera E.

Finalmente podemos acrescentar que a escultura pode também ter vida, no sentido que pode fazer pequenos movimentos repetitivos e caracterizadores, assim como fazem as pequenas estátuas dos presépios móveis. Pode acontecer então que o pai (marido) levante e abaixe de modo ritmado o braço com tom de ameaça, que a mãe (esposa) esteja alternadamente de frente ou de costas para o protagonista (cônjuge), expressando desta maneira a sua ambivalência.

Às vezes a escultura pronuncia uma breve frase – sempre com uma cadência repetitiva coordenada com o movimento – e que serve para completar o significado geral que o grupo escultural deve expressar.

A Escultura de casal, de família ou de grupo é uma das técnicas não verbais mais usadas recentemente.

Permite a expressão de idéias e de emoções através da utilização do corpo e do movimento. Propõe-se recriar simbolicamente, no espaço, os estados de espíritos e relações emocionais, através de uma representação tridimensional das relações entre os membros da família.

“A Escultura pode ser definida como a representação simbólica de um sistema, que utiliza os aspectos comuns de todos os sistemas – espaço, tempo, energia; desta forma relações, sentimentos, mudanças podem ser representados e experimentados simultaneamente”. [1]

Explicar em que consiste uma Escultura é tão difícil como descrever uma obra de escultura a alguém que não a possa observar diretamente.

Esculpir é uma modalidade criativa e não verbal, em que o escultor pode representar as suas próprias relações com os membros do seu grupo familiar, assim como as relações entre os outros membros em um momento histórico e num dado contexto.

A técnica da escultura oferece a possibilidade de evitar racionalizações, resistências e rótulos. Através da escultura o casal fica privado dos seus canais verbais mais significativos. Com efeito, os conflitos são representados duma forma coreográfica, i.é duma forma concreta e situada numa esfera visual, sensorial e simbólica, que dá aos participantes uma oportunidade de comunicarem emoções uns aos outros.

O casal começa a pensar-se a si próprio como unidade sistêmica, em que cada um é uma parte integrante daquela unidade e que influencia todas as outras partes.

É importante que compreendam e sintam que são eles que ativamente criam o seu próprio sistema, cuja vida e regras dependem das decisões de cada um no confronto com o outro. (Maurizio Andolfi ).

Fazendo a escultura, o casal poderá perceber as regras da relação de uma maneira mais clara para ambos. O escultor poderá receber nova informação sobre a forma como seu comportamento influencia de fato o outro, e vice versa.

A representação física e espacial de estados emocionais até aí desconhecidos, ou pelo menos vagos e confusos poderá então ser utilizada para aprender modelos de comunicação mais convenientes a ambos.

Vejamos também este artigo abaixo, traduzido por Juares Soares sobre uma aplicação da escultura à terapia de família na visão de Robert M. Simon.[2]

Conforme vocês forem lendo este artigo, observarão algumas considerações sobre o que foi dito pelo autor e que estarão em destaque como notas de rodapés. Estas notas são reflexões minhas e algumas vezes diferentes do que foi dito no artigo.

 

Esculpindo a Família

Em uma escultura familiar, os membros de uma família criam uma representação física de seus relacionamentos, em um determinado momento, através de um arranjo espacial dos seus corpos. As técnicas, o embasamento teórico e as aplicações deste método serão descritas a seguir.

A escultura familiar é um arranjo de pessoas ou objetos que expressa seu relacionamento familiar em um ponto do tempo.  O nome pode enganar, uma vez que a representação pode incluir sons ou movimentos que podem ser estranhos, exceto se utilizarmos as mais avançadas definições de escultura. Quadros vivos poderia ser um nome mais preciso, devido a seus tons teatrais, mas de qualquer modo, o nome “escultura familiar” parece ter se estabelecido no meio profissional.. Nesta forma de um “teatro de bolso”, a primeira experiência é “não verbal”, e seu impacto é derivado dos estímulos sinestésicos, táteis e visuais. A poderosa resposta emocional a estes estímulos é bem conhecida na terapia de família. Como Acckerman disse: “Os orifícios do corpo, a pele, a atividade dos órgãos internos e os sistemas musculares podem ser concebidos não apenas como zonas de experiência de prazer ou evitação da dor, mas também como agentes somáticos para o intercâmbio de energias entre o ambiente interno e externo; e ainda como mensagens não verbais para outras pessoas significativas, mostrando o estado afetivo dominante, estados de necessidade, prazer ou apreensão diante do perigo”.

De certo modo, o terapeuta já vê uma escultura quando a família que chega e se arranja espacialmente diante dele.  Muito do que pensamos ou sabemos foi influenciado pelos arranjos físicos e outras pistas não verbais. Esta percepção acentua-se quando a família está no lar. Como afirmou Moreno em 1923, “O teatro terapêutico é o lar privado. Os atores do teatro terapêutico são os ocupantes do lar”. Na literatura mais recente, Speck compara a família em sua casa a atores, e observa que, à medida que elementos dramáticos se mostram “a intensificação dos sentimentos pode ter um efeito terapêutico, pelo re-fortalecimento dos aspectos emocionais das situações, produzindo uma catarse”.

A relação da escultura familiar com o Psicodrama é óbvia, mas problemática. Como ferramentas terapêuticas, há diferenças marcantes.  O Psicodrama usa situações concretas construídas a partir da vida, e as transporta para uma narrativa dramática e para um comentário do grupo terapêutico. Em contraste, a escultura familiar é um ícone, uma abstração simbólica de um momento do tempo. Outras diferenças poderiam ser citadas, mas as comparações logo faltariam, por que o Psicodrama é um modo de terapia bem desenvolvido em sua própria legitimidade, enquanto que para a terapia familiar é até o momento um acessório[3] para a terapia familiar, que pode funcionar intacta sem ela. De qualquer modo, não se pode ficar muito distante do Psicodrama ao se considerar a escultura familiar. Ambos exploram as forças dramáticas e para-verbais da natureza humana, e portando tem pontos de congruência.

 

Método

A escultura pode ser apropriada em um dado momento do diagnóstico ou da terapia. Precisa-se ter ao menos três ou quatro pessoas presentes, mais alguns objetos ou móveis que possam ser usados como personagens dramáticos adicionais. Famílias numerosas obviamente entram no processo com mais facilidade que casais[4].  A decisão de fazer uma escultura pode ser tomada para cortar[5] a excessiva verbalização, para envolver os membros da família com “língua-presa, ou para esclarecer material dinâmico. Tanto a família do presente quanto a do passado podem ser representadas e qualquer número de membros da família  extensa podem ser introduzidos no quadro, usando  pessoas ou objetos disponíveis.

Incluindo uma peça de mobília: A jovem esposa estava tão ansiosa e ainda confusa ao descrever sua família de origem que o terapeuta a convidou a fazer uma escultura ao invés de falar. Ela escalou o terapeuta como seu pai, e o co-terapeuta como sua mãe, e seu marido como sua avó.

Não sobrou ninguém disponível para representar seu jovem irmão deficiente. Quando convidada a usar também a mobília da sala, ela escolheu uma mesa de café redonda como seu irmão. A família foi então arranjada em um forte e entrelaçado círculo ao redor da mesa, representando a preocupação ansiosa que sempre esteve focalizada sobre o rapaz.

Designar o escultor é uma questão de habilidade terapêutica[6]. Quando se conhece a família, freqüentemente se reconhece um artista natural, ou poeta, ou fofoqueiro, juntamente com os papéis familiares mais tradicionalmente discutidos na literatura.

É claro, nem todo mundo é uma Marta Graham, quando vai representar plasticamente dos temas inconscientes, mas o talento natural de nossos clientes é freqüentemente uma fonte de agradáveis surpresas. Adolescentes freqüentemente se mostram excelentes escultores, devido a seu “insight” sobre as verdades familiares, e a seu prazer natural em manipular os mais velhos. Crianças na fase da latência naturalmente são bons escultores, embora sua produção possa ser de alguma forma idealizada e estereotipada. É mais difícil para uma pequena criança ou para os pais iniciar a escultura, os primeiros por falta de compreensão e os últimos devido à sua ansiedade a cerca de sua dignidade. Entretanto, uma vez quebrado o gelo, eles podem se mostrar escultores com muita percepção, e uma competição cheia de vida pode desenvolver-se entre os membros da família, cada um querendo demonstrar seu ponto de vista.

Dois pontos de vista: Esta era uma família em que três crianças tinham que se arranjar sozinhas quando os pais saiam à noite. Havia um tumulto considerável nestes momentos, e as duas crianças mais velhas tinham distúrbio de sono. Como o pai era um artista, foi convidado a ser o primeiro escultor. Ele arranjou a família como se fosse para uma fotografia em grupo, com os pais carinhosamente envolvendo as crianças. Ele havia sofrido grandes privações em sua infância e, sua escultura correspondia a seu ideal de família.

A esposa então pediu a vez. Ela se considerava mais realista e estava interessada em assuntos ligados ao poder. Ela colocou as crianças mais velhas sobre seus joelhos, com a mais nova de pé, ereta, entre eles. Isto, ela disse, representava a rivalidade entre os mais velhos, para mostrar quem poderia ser um “pai” melhor para a pequena irmã quando os pais saíam. Ela moveu a si mesma e ao esposo para os lados[7].

O exemplo acima ilustrou como a escultura funciona. Quando a família atual é esculpida, os membros da família habitualmente representam a si mesmos: para a família de origem, o escultor escala os papéis, o que em si pode possibilitar algumas observações interessantes.

Como a escultura em si não se presta para uma narrativa, a orientação temporal deve ser específica, por exemplo: “é assim que era quando eu tinha dez anos de idade”[8].

O escultor é convidado a explicar o que está acontecendo (em alguns casos, pode haver provocação). Quando o impulso artístico falta, o terapeuta pode precisar encorajar o uso do movimento e das atitudes corporais. Uma atmosfera mais livre pode ser intensificada se o terapeuta oferece-se para participar; e também se fica estipulado que qualquer um que participar deverá ser à partir do lugar onde estiver sentado conduzido. Discussão pode vir em seguida, e habitualmente acontece. Um tempo suficiente deve ser reservado para isto. Um nível interessante de discussão é atingido quando as pessoas são colocadas no papel dos outros. “Como nas técnicas psicodramáticas tais como “espelho”, “duplo” e solilóquio”, as emoções mobilizadas nas pessoas que representam podem trazer luzes úteis para os protagonistas originais.

 

A participação do terapeuta: O filho mais velho estava sempre muito ocupado para comparecer a uma entrevista. As esculturas feitas por dois irmãos o colocaram em uma posição periférica na qual todos estavam de costas para ele. O terapeuta estava no lugar do irmão ausente, e comentou sobre um sentimento de solidão e isolamento que sentiu. Pela primeira vez, a família considerou a hipótese de que também estivesse excluindo aquele irmão.

 

Metodologia e Técnica

Na terapia de casal, em que o ponto nodal é o conflito sobre quem define as regras da relação, o terapeuta pode convidar os cônjuges a criar uma escultura para representar o conflito ou como eles se relacionam.

Podemos utilizar as seguintes consignas:

— Hoje iremos trabalhar de um modo diferente. Vamos olhar, conversar e refletir sobre a relação de vocês utilizando uma outra linguagem. Uma linguagem diferente da linguagem verbal.

—Vamos usar uma técnica que se chama Escultura. Quando observamos uma escultura percebemos e sentimos algumas coisas que, podem ser ou não aquilo que, quem a esculpiu, quis transmitir.

—Vocês vão fazer uma escultura com os seus corpos e depois vamos conversar sobre isto.

—Imaginem como poderia ser representada a relação de vocês hoje. Uma escultura feita com os seus corpos, como se fossem barro, argila, e que possa mostrar, dizer, representar vocês dois na relação de casal.

—Imaginem primeiro…. Sem dizer nada.

—Entenderam o que vamos fazer?

Observação: Se não entenderam, dar alguns exemplos, mas pedir para que não se preocupem muito em acertar, pois a medida que irão fazendo a escultura a criatividade ajudará a expressar o que querem.

Como falei acima é difícil explicar o que é a técnica da escultura e o que nos ajuda é experimentar, vivenciar para podermos falar e refletir sobre ela.

Se entenderem, perguntar quem gostaria de começar. Dar mais algumas consignas se necessário.

— Coloque-se na posição que você se vê na relação, dando a distância em que você se vê com teu parceiro/a, com a postura corporal, expressão do rosto, posição da mão, pé e cabeça esculpida de modo a representar a dinâmica de vocês como casal.

—Procure não usar o verbal. Vai moldando com a mão.

 

Depois de concluída a escultura:

—Fiquem nesta posição. O que estão sentindo? Qual a emoção que prevalece, ou que é mais forte? Vejam se associam a algo? Não falem nada. Respirem profundamente. Como sentem o corpo?

O terapeuta fica de fora, observando, dirigindo o trabalho, dando mais alguns esclarecimentos, se forem necessários. Deixa o casal por um determinado tempo e dá outra consigna.

—- Agora, eu vou entrar no teu lugar (de quem fez a escultura) e você fica de fora observando e veja o que te ocorre, o que te chama atenção. (Dê um tempo).

—- Agora você (que está de fora) entre no lugar do seu parceiro/a, na mesma posição que você o/a colocou. Sinta e registre as sensações, emoções e pensamentos. O/A parceiro/a que está de fora observa e registra as mesmas coisas.

 

Deixa um tempo.

—-Agora fiquem nas posições invertidas do início.

Depois coloco os dois para observarem, um por vez.

A partir daí, repito o mesmo procedimento com o outro cônjuge.

Depois de concluída esta etapa, posso passar para uma conversa com o casal sobre a experiência, explorando o que sentiram, se concordam com a escultura do outro, se puderam refletir sobre algo novo ou conhecido que acham importante, etc…

Podemos continuar com a técnica, caso achem adequado e o tempo permita com algumas outras variações.

Variações: Pedir que voltem a fazer a escultura e que dêem movimento e/ou voz a ela, dando a seguinte consigna:

—Imagine que esta escultura tem um movimento, faz um movimento, vai fazer um movimento no futuro, fale algo, tenha um som…. Como seria?

Conversar sobre isto.

Podemos usar inúmeras consignas, dependendo do que estamos trabalhando com o casal, da fase da terapia e da disponibilidade deles participarem da dinâmica.

Muitas vezes podemos pedir que façam a escultura do conflito que fez com que viessem para a terapia ou que façam uma projeção no tempo de como estarão daqui a alguns anos, ou como faria a escultura que pudesse representar a relação dos genitores, ou fazer uma escultura de como gostariam que se relacionassem.

Como podemos ver, temos uma riqueza de possibilidades no uso desta técnica e vai depender da criatividade do terapeuta e clientes, da disponibilidade dos clientes aceitarem fazer a representação e da avaliação do momento da terapia e repercussão que está tendo no casal.

Podemos trabalhar somente com o casal, usar almofadas ou objetos para representar um dos pares ou convidar um co-terapeuta para participar desta sessão para que fique nos lugares que designarmos.

È uma técnica muito rica, mas também muito forte e pode causar um impacto grande em um casal. Cabe ao terapeuta avaliar se deve continuar com a técnica ou interromper, caso ache que não está sendo de utilidade naquele momento.

Esta seqüência citada acima é apenas uma das maneiras que podemos trabalhar com esta técnica da escultura, podendo ser utilizada com outras variações segundo a criatividade de quem ou com quem a utiliza.

Pode ser trabalhada em apenas uma sessão ou em várias sessões dependendo da dinâmica que surge.

Podemos aprofundar um tema importante para aquele momento do casal deste que não exponha nenhum dos parceiros inadequadamente.

Concluindo, este é mais um recurso que podemos utilizar no trabalho com casais que acrescenta às narrativas que trazem outros olhares que possam auxiliar para uma melhor negociação e propostas de mudanças.

[1] Maurizio Andolfi, A Terapia Familiar, Editora Vega- pgs 125-137 .

[2] Robert M. Simon, MD, Diretor do Departamento de ambulatórios, Divisão Westchester do Hospital New York, White Plains, NY

[3] Também para o Psicodrama esta técnica é apenas um instrumento usado no processo de terapia e não só para “situações concretas” construídas a partir da vida, mas sobretudo quando sensações sentidas não são muito claras ou só conseguem ser expressadas através de metáforas.

 

[4] Nestes casos o Psicodrama se utiliza de egos-auxiliares ou objetos.

[5] Provavelmente a palavra “cortar” deva ser interpretada como a importância de se concretizar um sentimento que não consegue ser expresso com clareza e objetivamente.

[6] A expressão “designar” está adequada se ainda não se definiu um protagonista no tema da sessão e ai, o terapeuta pode escolher quem ele acha ser o melhor escultor para uma concretização. Conceitualmente o escultor terá que ser o protagonista, pois só ele conseguirá fazer uma escultura – com a ajuda do diretor (terapeuta) – que represente aquilo que só ele sente e nem sempre de uma maneira clara.

[7] Este é um exemplo onde a conflituosidade psíquica foi concretizada através de esculturas.

[8] Mas uma seqüência de esculturas (recorrentes) pode expressar materialmente a evolução da história através das narrativas durante o processo terapêutico.


Pragmática da Comunicação Humana e Terapia Sistêmica (Unip set 2012)

13/09/2012

PRAGM COMUN HUMANA