Eu Ator e Eu Observador

Este exercício nasceu de duas motivações: agrupar algumas considerações sobre os papéis denominados Eu-ator e Eu-observador, e na aplicação destes conceitos na análise fundacional de algum autor ou obra publicada.

Fugindo um pouco do tipo de autor ou obra normalmente escolhidos para este tipo de exemplificação, eu escolhi os heterônimos de Fernando Pessoa.

Os termos Eu-ator e Eu-observador são usados normalmente no psicodrama para focalizar esta bipolaridade intrapsíquica. O termo Eu-observador designa aquela parte do Eu que governa as funções perceptivas e de discriminação, tornando a pessoa testemunha de si mesmo no mundo; esta parte, que pertence à parte consciente, estaria livre de ambivalência, de distorções e indecisões (1). Moreno denomina esta polaridade como “observador interno” (2). A outra polaridade, a do Eu-ator, é aquela responsável pela ação como o próprio nome induz.

É importante recordar que a ação pura existe somente em casos limites, assim como a reflexão pura, mas que no momento em que esta reflexão vem verbalizada ou escrita, passa a ter também uma componente de ação. Neste exercício, será possível identificar figuras internas cujo aspecto é tendencialmente aquele da ação, ou aquele da observação.

No nosso cotidiano, vamos encontrar a prevalência da ação nas atividades de rotina com a repetição de ações estereotipadas que não requerem, alias, excluem a reflexão. Somente quando alguma coisa não funciona nestas rotinas è que a reflexão é acionada. Está presente também nas explosões de cólera, onde prevalece a ação quase exclusiva sobre a reflexão. Seria o Eu-ator em pleno desempenho.

Uma outra situação é aquela da concentração exclusiva sobre um objeto, ocupando inteiramente a capacidade de concentração da atenção da pessoa, e tornando difícil a possibilidade de se destacar, de ver-se de fora e, sobretudo de perceber um antes e um depois. É um ser absorto com alguma coisa que não é a própria Gestalt de referência, isto é, o contesto no qual se encontra. Observar-se é o sair fora de si, para poder se ver. O comportamento como Eu-observador não deve ser confundido com uma atitude reflexiva, mas é um destacar-se e observar-se no contesto da ação. Tal situação é intencionalmente provocada nas sessões de psicodrama.

Durante uma seção o psicodramatista leva o protagonista (ou paciente) a colocar-se nas duas polaridades, ou seja, como ator e como observador. Na primeira polaridade ele reexperimenta o registro da vivência, e na segunda ele tem a possibilidade de observar-se e observar o contexto, podendo assim interiorizar (memorizar) a vivência de uma maneira mais clara e integrada.

S.Freud assinala esta importante faculdade: “o Eu pode considerar a si próprio como objeto, pode tratar a si próprio como um objeto qualquer, isto é, observar-se e criticar-se”. (3) Sua filha, Anna Freud, faz um comentário no mesmo sentido: “Me convenci que o separar uma função observadora do resto do Eu poderia constituir uma característica habitual da estrutura do Eu”. (4)

A auto-observação nos vários papéis serve para ampliar a autoconsciência e o autocontrole. A ação propriamente dita não possui uma localização no tempo, pois o tempo para ela é somente aquele no qual ela se desenvolve. A possibilidade de se observar e refletir permite inseri-la numa sequência de tempo.

J.L.Moreno atribui a esta polaridade Eu-ator e Eu observador, uma importante função do desenvolvimento intrapsíquico. Ele chega a assinalar a existência de centros que define como “centro da ação e centro do conteúdo”. Esta hipótese é justificada por Moreno, através do processo de memorização que utiliza dois diferentes percursos neurológicos, e por isto, não poder se apresentar simultaneamente. Segundo ele, a importância da função do participante interno (Eu-observador) é permitir a memorização do vivido na ação.

Moreno acena então com a possibilidade de conceber no individuo uma cisão entre a “personalidade da ação” e a “personalidade conceitual”. (5) Tal impostação conceitual nos leva a definir os dois papéis: Eu-ator e Eu-observador.

Feita a distinção acima entre o observar e o refletir, acho igualmente importante dar à expressão Eu-ator, a conotação que possui dentro do psicodrama.

Diferentemente da concepção de Goffman (6), que é aquela investidura do individuo que serve para sustentar o personagem da representação enquanto esta ocupado em sustentar uma certa definição da realidade, o ator psicodramático não aparece, mas se manifesta, deixando transportar-se nos territórios da semirealidade, com o temor e ao mesmo tempo o desejo de reconhecer as próprias emoções. A concepção clássica de ator se aplica mais adequadamente àquilo que no psicodrama seria o eu-auxiliar da pessoa, isto é, que num certo momento tem o compito de encarnar certo papel (como indicado pelo protagonista ou pelo diretor), no melhor de sua capacidade expressiva.

O ator Goffmaniano é aquele da vida cotidiana, na qual a pessoa é obrigada a esconder-se e a fabricar aparências, enquanto no palco cênico Moreniano, o ator se entrega nas mãos do diretor e confia na aceitação dos colegas, para poder ser e encontrar-se.

Do ponto de vista do psicodrama, o Observador que funciona bem é aquele que utiliza a conceituação de forma dialógica relativamente ao que o Ator está vivendo naquele contesto. Quando tal relação dialógica não está bem desenvolvida, podemos ter a predominância da reflexão sobre a observação.

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Fernando Pessoa nasceu em Lisboa em 13 de junho de 1888, e imediatamente após a morte do pai em 1894, começou a criar os heterônimos – pessoas imaginárias para povoar o teatro íntimo do seu Eu.

Em 1914 começa a escrever usando o seu primeiro heterônimo: Alberto Caieiro. A criatividade irrefreável do seu mundo interior se manifestará também através da personalidade de Ricardo Reis, e naquela de manifestação oposta, ou seja, de Álvaro de Campos.

Alberto Caieiro emerge como uma figura dominante em relação à de Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Fernando Pessoa sentia estas suas figuras internas como vivas e acabou dando-lhes uma biografia. Alberto Caieiro da Silva nasceu em Lisboa, em abril de 1889, e faleceu na mesma cidade em 1915. Passou quase toda a sua vida numa quinta do Ribatejo, voltando a Lisboa no final da vida, da qual alias, não ha o que narrar, sua vida e suas observações reflexivas se confundem.

Alberto Caieiro propõe uma poesia de inspiração inesperada, é uma linguagem discursiva que, às vezes, apresenta alguns lapsus. É agnóstico e deseja anular a morte negando a consciência. A sua postura é de um paganismo existencial. Caieiro é considerado o heterônimo que não deseja nada. E’ o filosofo dos heteronomios.

“O único sentido íntimo das cousas

É elas não terem sentido íntimo nenhum.

 

Não acredito em Deus porque nunca o vi.

Se ele quisesse que eu acreditasse nele,

Sem dúvida que ele viria falar comigo

E entraria pela minha porta dentro

(O guardador de Rebanhos, poema V, O que penso do mundo)

 

Mas o ponto mais interessante da sua poesia, alem de declarar uma objetividade absoluta, è aquele de interrogar-se com irrefutável inocência sobre a generalização do significado dos simbolos. Reconhece que a ligação entre o significante e o significado é feita pelo código interno de cada um. É um observador reflexivo que se utiliza de uma metalinguagem para se exprimir.

“O universo não é uma idéia minha,

A minha idéia do universo é que é idéia minha”

(Poemas inconjuros, O universo não é idéia minha, 01.10.1917)

 

“Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento, Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade, Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada. Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada. Assim tudo o que existe, simplesmente existe. O resto é uma espécie de sono que temos, infância da doença. Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.”

(Poemas inconjuros, Assim como, 01.10.1917)

 

Alberto caieiro assume desta forma um papel de destaque, come o Eu-observador de Pessoa. Ele não é participante das ações. O seu papel é aquele de descrever o que observa e interpreta da realidade. A sua visão do mundo é que as coisas já estão aqui na sua plenitude, e que o homem vê somente aquilo que os outros o ensinaram a ver. Este personagem interno se coloca como um crítico daquela forma de interpretação que Moreno atribuiu como determinada pelas “conservas culturais”, ou seja, interpretações que herdamos na nossa formação. E.Kant já dizia: “Das coisas, nós conhecemos aquilo che colocamos nelas”.

“Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas, Rio como um regato que soa fresco numa pedra.

 

Porque o único sentido oculto das cousas É elas não terem sentido oculto nenhum, É mais estranho do que todas as estranhezas E do que os sonhos de todos os poetas E os pensamentos de todos os filósofos, Que as cousas sejam realmente o que parecem ser E não haja nada que compreender.”

(O mistério das cousas, O Guardador de Rebanhos, poema XXXIX)

 

Outro personagem é Ricardo Reis, que nasceu às 11:00 do dia 28 de janeiro de 1914, foi discípulo de Alberto Caieiro, de quem adquiriu a lição de paganismo espontâneo. Ha informação dando conta de que teria embarcado para o Brasil em 12 de outubro de 1919. Era o heterônimo que desejava o impossível.

Esta figura interna é a que apresenta com uma maior rigidez de forma e de conteúdo. Ele possui uma expressão purista, abstrata e quase analítica. È o papel mais complexo dentre as suas figuras internas. Anacoreta, ele privilegia os gêneros neoclássicos altamente elaborados, como a epigrama, a elegia e a ode. Ele representa uma rara composição de esteta estóico da qual a perfeição dos poemas curtos procura a tranquila resignação diante do destino.

È a figura interna com o mais baixo grau de espontaneidade. Tende a interpretar e ser reduzionista da verdade como nos versos de “Não só quem nos odeia e nos inveja”. Nestes versos o personagem apresenta a sua tendência ao maniqueísmo. São representações belas e muito elaboradas. A escarça espontaneidade é fruto do papel rígido, cheio das “conservas culturais” típicas do estoicismo, e se transformou na origem deste reducionismo, deste maniqueísmo, da elaboração precisa da forma e do conteúdo. Fernando Pessoa chega a dizer que ele é um semi-heterônimo, porque sua personalidade não é muito diferente da sua, mas uma mutilação dela. “Sou eu menos o raciocínio e a emotividade”, completou.

“Ninguém a outro ama, senão que ama O que de si há nele, ou é suposto. Nada te pese que não te amem. Sentem-te Quem és, e és estrangeiro. Cura de ser quem és, amam-te ou nunca. Firme contigo, sofrerás avaro De penas.”

(Ninguém a Outro Ama)

 

“Não só quem nos odeia ou nos inveja Nos limita e oprime; quem nos ama Não menos nos limita. Que os deuses me concedam que, despido De afetos, tenha a fria liberdade Dos píncaros sem nada. Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada É livre; quem não tem, e não deseja, Homem, é igual aos deuses.”

(Não so quem nos odeia e nos inveja)

 

A ultima figura interna é Álvaro di Campos. Sua visão frequentemente se confunde com aquela assinada por Fernando Pessoa. È a sua figura interna pragmática, não idealista. Este personagem nasceu em 15 de outubro de 1889. Engenheiro, inquieto e sensacionista, representam a parte mais audaciosa de Pessoa.

Álvaro de Campos compõe versos livres e irreverentes em relação ao português clássico e casto. Ele se livra do conservadorismo linguístico e poéticos e pode se exprimir com grande espontaneidade. Se Alberto Caieiro representou o Eu-observador de Pessoa, Álvaro de Campos foi o seu Eu ator.

Álvaro de Campos, como Fernando Pessoa, tem uma visão apaixonada da realidade concreta. Enquanto Caieiro cultiva a abstinência e a introspecção filosófica, Álvaro de Campos é um galante homem peregrino.

 

“Depus a máscara e vi-me ao espelho. — Era a criança de há quantos anos. Não tinha mudado nada… É essa a vantagem de saber tirar a máscara. É-se sempre a criança, O passado que foi A criança. Depus a máscara, e tornei a pô-la. Assim é melhor, Assim sem a máscara. E volto à personalidade como a um términus de linha.”

(Depus a Mascara)

 

Diante de uma crítica provocatória, e catalisada pela espontaneidade deste seu personagem, respondia com a criatividade do seu mundo subjetivo. Não são versos elaborados, são expressões puras, reflexo deste grande estado de espontaneidade e criatividade.

“Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

(A Tabacaria)

 

A postura de Eu-ator, de Álvaro de Campos, deu à sua expressão uma conotação existencial, com o aproveitamento do que é possível de se extrair da emoção.

 

Fernando Pessoa, quando assina como Fernando Pessoa, é muito intuitivo e se apresenta claramente como um Eu-ator cheio de vida. Ele mesmo apresenta as cinco condições ou qualidades para ter acesso ao seu código de ligação entre os símbolos e os significados que possuem para ele: a simpatia, a intuição, a inteligência, a compreensão e a graça. Mas deixando de lado uma discussão do que poderia significar para cada um de nós estas qualidades (ou condições), não é difícil perceber que são predominantemente ligados à ação, à sensação, e pouco à reflexão se consideramos que apenas a compreensão poderia necessitar do momento reflexivo.

“Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração.”

(Cancioneiro, Dizem que finjo ou minto)

 

“Temos, todos que vivemos, Uma vida que é vivida E outra vida que é pensada, E a única vida que temos É essa que é dividida Entre a verdadeira e a errada.”

(Cancioneiro, Tenho Tanto Sentimento)

 

Pessoa muitas vezes, como Eu-ator, usa uma linguagem hermenêutica para traduzir numa linguagem poética, a linguagem conflitual que existe entre as diferentes figuras que coabitam no seu mundo interno. É criativo, mas a sua espontaneidade não chega no nível de Álvaro de Campos, e isto deve-se a não ter conseguido se liberar da ansiedade como o fez Álvaro de Campos. A sua ansiedade é provocada pelos seus conflitos internos, pela dificuldade em fazer dialogar os extremos que coabitam em seu interior, e é presente em muitas passagens de suas poesias:

“De quem é o olhar Que espreita por meus olhos? Quando penso que vejo, Quem continua vendo Enquanto estou pensando ? Por que caminhos seguem, Não os meus tristes passos, Mas a realidade De eu ter passos comigo ?

 

Às vezes, na penumbra Do meu quarto, quando eu Por mim próprio mesmo Em alma mal existo,”

(Cancioneiro, De quem é o olhar)

 

Como um comentário final, podemos dizer que o poeta Fernando Pessoa, talvez como nenhum outro, conseguiu exprimir a complexidade da alma humana, servindo-se para isto de suas figuras internas que denominou heterônimos.

Cada uma delas via o homem e o mundo com a sua visão particular, mas apresentado diversos pontos em comum como era de se esperar. Era como se o mundo interno de Pessoa, para usar a Concepção Funcional do Self, se apresentasse com configurações diversas sem perder a sua integridade e sentido de continuidade.

Num breve resumo, podemos apresentar estas configurações desta forma:

Alberto Caieiro se comporta como seu Eu-observador. A espontaneidade não é elevada porque, como observador e, frequentemente usando uma metalinguagem para se exprimir, fica vinculado a determinadas regras.

Ricardo Reis vê o homem e o mundo de uma maneira reducionista. A espontaneidade desaparece sob um maniqueismo dominante. Ele se coloca como um juiz separado dos temas que expõe.

Álvaro de Campos representa o seu Eu-ator. Esta figura rompe seja o conservadorismo linguístico como aquele de manifestação conceitual, naquilo que foi considerado como uma colaboração ao futurismo da literatura portuguesa. Ele representa o ápice da espontaneidade de Fernando Pessoa, e muito provavelmente por esta razão, pertencem a esta sua figura interna, as poesias mais conhecidas e amadas de toda a sua obra.

Fernando Pessoa vê o homem e o mundo segundo approchs diferentes destas três configurações internas da sua personalidade, mas que apresentadas separadamente nos torna mais fácil compreender a sua escolha fundacional.

Sérgio Rodrigues

Março 2003

 

Referências:

(1) G.Boria, Lo Psicodramma Classico, Franco Angelis.r.l, Milano, 1997, pg 29-30

(2) J.L.Moreno, Psychodrama First Volume, Beacon House, New York, pg 64

(3) S.Freud, The Ego and the Id, in: J.Strachey, Standard edition of the complete psychological works of Sigmund Freud, vol.19, pgs 3-63, Hogarht Press, London

(4) A.Freud, The Ego and the Mechanisms of Defence, in: The writings of Anna Freud, vol.11, pg 59, 1936, International University Press, New York

(5) J.L.Moreno, Who Shall Survive? Beacon House, 1934, pg 329

(6) E.Goffman, The presentation of Self in Everyday Life, Dobleday, New York, 1959

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