CASAIS E FAMÍLIAS: SISTEMAS HUMANOS

Sérgio Rodrigues

Por que o urso polar é branco? Os ursos polares (Ursus maritimus) desenvolveram uma pelagem transparente em vez de preta ou marrom para a camuflagem. Embora os pelos pareçam brancos, na verdade são incolores. No lar dos ursos polares no Círculo Polar Ártico, a maior parte da paisagem consiste em neve e gelo. Os animais brancos se misturam ao pano de fundo branco, escondendo o urso de suas presas e de outros ursos. Essa adaptação ao sistema em que vivem é semelhante a uma cobra verde que vive na grama ou uma corça marrom que vive na floresta.

Por que a quantidade de sal de cozinha (cloreto de sódio: NaCl) dissolvida em água é diferente em função da temperatura? Sem entrar numa explicação técnica eu poderia resumir dizendo que a molécula de sal é o resultado de um vínculo entre dois átomos formando um pequeno sistema. A água e a temperatura são elementos do ambiente onde este sistema está inserido. As variações nas condições destes elementos do ambiente influenciam e até determinam o resultado do novo estado de equilíbrio do conjunto sistema-ambiente.

A ciência nos oferece infinitos exemplos de situações onde as características de um elemento – sobretudo dos seres vivos – sofre influência dos sistemas em que estão inseridos na construção de suas características físicas e também de seus comportamentos.

Mas, direcionando nosso foco para o ser humano, vemos que ele nasce e vai construindo a sua percepção do mundo e o modo como deve se comportar nele. Ele desenvolve uma matriz como uma referência de vida, uma base de vínculos e circularização de relações. Matriz de identidade é o berço da consciência de quem somos, dos nossos valores como pessoa. Ela abriga a formação da nossa identidade. É o modelo de vínculos, referencial de vida, afeto, respeito e alegria. São registros de relações que filtram para a essência de cada um: referência materna, referência paterna, relação pai e mãe, relação homem e mulher, relação família.

Um dia este ser humano se encanta por outro e decidem desenvolverem juntos um projeto de vida. Estabelece-se um sistema sustentado, na maioria das vezes, por vínculos tácitos que manterão o sistema casal e posteriormente o sistema família. Mas cada membro do casal possui uma Matriz de Identidade que é a sua referência para viver e interpretar a vida. O sistema formado agora é bem mais complexo e tenderá a se tornar cada vez mais complexo com a chegada de filhos, por exemplo.

Um dia podem aparecer dificuldades nestes relacionamentos e com elas podem surgir angústias. Um eventual crescimento das angústias acaba levando o casal a se questionarem. Se não for encontrado algo que os ajude a desfazer as angústias e recuperar o sentimento do início da relação, pode ser aconselhável a ajuda de um “especialista” em problemas de casal (ou família). Chegam então ao consultório do terapeuta de casal.

O terapeuta abre a porta e o que é que entra no consultório? Visualmente entram duas pessoas (ou mais se for terapia de família), mas o terapeuta está recebendo o casal (ou a família).

Neste processo terapêutico o cliente é o casal. A busca por dinâmicas que se manifestam, por posturas da cada componente deste casal, por acordos e desacordos, levará sempre em consideração não somente as características individuais, os tipos de vínculos conjugais, o histórico do desenvolvimento da relação, mas tudo isto dentro dos sistemas abertos a que pertencem e como estes sistemas podem estar contribuindo para as alterações das condições iniciais da relação.

A título de ilustração destaco os principais conceitos ligados aos sistemas além de algumas figuras destes sistemas e de suas interações.

Sistema é um conjunto de elementos, de atributos destes elementos e das relações dos elementos e de seus atributos. O elementos são os objetos ou as partes do sistema, os atributos são as propriedades dos elementos e as relações mantêm o sistema.

Casais e famílias formam sistemas onde os elementos são as pessoas que constituem o casal ou a família. Os atributos podemos considerar como sendo seus comportamentos. Identificamos como relações que mantêm o sistema, as interações expressas pelos aspectos de “comando” dos processos de comunicação interativos do sistema.

Enquanto nos sistemas fechados, que são aqueles que não sofrem influência do meio ambiente onde estão inseridos, os casais e as famílias são sistemas abertos e, por isto, sofrem interações com o ambiente onde estão inseridos. Desta forma, a interação gera realimentações que podem ser positivas ou negativas, criando assim uma auto regulação regenerativa, que por sua vez cria novas propriedades que podem ser benéficas ou maléficas para o todo independente das partes. Toda organização familiar é um sistema aberto

Não podemos esquecer do ambiente de um sistema, que é um conjunto de elementos que não fazem parte do sistema, mas que podem produzir mudanças no estado do sistema. No sistema formado por um casal ou por uma família, por exemplo, o ambiente pode ser percebido como o “clima” existente. Este “clima” pode ser facilitador que é composto de aceitação, proteção e continência, ou inibidor que é de medo, abandono, hostilidade, censura entre outros.

Todo sistema pode ser subdividido em subsistemas e que os elementos que pertencem a um subsistema pode-se considerar como fazendo parte do ambiente de um outro subsistema.

Vou colocar de uma maneira ilustrada esta integração de diferentes sistemas e heranças tão diferentes que acabam convivendo e interagindo num ambiente de um casal e de uma família. Imagem8

 

Imagem3

Como se pode ver, todos os membros deste sistema familiar estão em “relação” e interação com outros sistemas e outros ambientes. Por ser um sistema aberto e dinâmico estas “relações”, que mantêm e estruturam o sistema de uma família, recebem “alimentação” externa estabilizadora (retroalimentação negativa, homeostase) ou desestabilizadora (retroalimentação positiva).

Para se entender e poder ajudar as pessoas, os casais ou as famílias – como tudo na vida – não devemos excluí-los do mundo em que vivem. As relações com este mundo externo é que vai contribuindo para a construção, estabilização ou desestabilização de seus respectivos mundos internos. Os vínculos que existem em um casal ou em uma família vão sendo construídos através do processo de comunicação desenvolvido através destas relações. É por este motivo que no atendimento de casais ou famílias o terapeuta deve ter uma visão sistêmica.

A ciência do século passado adotava a mecânica clássica como modelo do pensamento científico. Isso equivale a pensar nas coisas como mecanismos e sistemas fechados. A ciência de nossos dias adota o organismo vivo como modelo, o que equivale a pensar em sistemas abertos e que o funcionamento saldável ou não de um sistema pode ter muitas vezes como cauda fatores ligados às relações que mantêm o sistema. Basicamente isto faz parte do que chamamos de Pensamento Sistêmico.

A. Einstein já assinalava esta interligação dos problemas:

Um erro comum é imaginar que podemos resolver “todos” os problemas dividindo-os em partes e observando o que está falhando. Isto pode nos distanciar das relações entre as partes onde pode residir a real causa ou fatores que contribuem para o problema. Um raciocínio convencional (reducionista) é reduzir o problema a “isto” ou “aquilo”, enquanto o pensamento sistêmico define “isto e aquilo”.

Nós possuímos nossas individualidades únicas, mas muitas de suas características foram sendo incorporadas nas relações com os sistemas onde nos desenvolvemos, da mesma maneira que em maior ou menor intensidade contribuímos para as características destes sistemas e tudo se desenvolve através das “relações” entre os componentes do sistema e o próprio sistema.

Voltando para o casal (ou família) que entrou no consultório para uma terapia, ele não deve ser visto como problema, mas como agente de mudança e responsável pela solução. É neste contexto que se observa e se percebe o relato trazido pelo casal numa sessão, as propostas de mudança, a tentativa de melhorar e a busca por um relacionamento melhor na vida deles.

Na sequência da sessões as narrativas vão sendo conduzidas e estimuladas buscando evidenciar as tensões que angustiam o sistema casal para identificar o tipo de angústia que os levou ali. É importante distinguir se a angústia é do tipo existencial, ou do tipo patológica ou do tipo circunstancial[1]. Na terapia de casal trabalha-se com as angústias existencial e circunstancial, enquanto que para a angústia patológica indica-se a terapia individual.

Normalmente estas narrativas trazidas no setting terapêutico são de “históriasoficiais”, paralisadas de tanto se repetir e que não funcionam mais. Nestes casos o processo terapêutico busca criar novas compreensões do problema, fazendo principalmente o uso de perguntas reflexivas. Este tipo de busca por soluções dentro do próprio sistema é importante para não deixar que as “histórias oficiais” inibam os aspectos sadios, positivos, que existem e que muitas vezes criaram o foco de atração entre eles.

Fazer uma boa pergunta já é terapêutico e são muito úteis na terapia enquanto ouvimos o discurso dos clientes. Além das perguntas reflexivas temos outros tipos de perguntas que vou fazer uma síntese abaixo:

PERGUNTAS LINEARESsão perguntas para orientar a quem pergunta sobre a situação e são baseadas nas teorias lineares. A intenção é a investigação, tendo como perguntas básicas: quem fez o que? Onde? Quando e por quê?

PERGUNTAS CIRCULARES também são formuladas para orientação de quem pergunta a respeito da situação e são baseadas em teorias circulares. A intenção é a exploração e as perguntas são formulações para levantar “os padrões que conectam” pessoas, objetos, ações, percepções, ideias, sentimentos, eventos, crenças, contextos, etc.

São caracterizadas por uma curiosidade geral sobre a possibilidade de uma ligação entre os eventos, que inclui o problema, em vez de uma necessidade de conhecer a origem do problema.

Este tipo de pergunta leva uma pessoa a pensar com a cabeça de outra pessoa. Ex: Se teu pai estivesse aqui, o que você acha que ele diria sobre,,,,,,

PERGUNTAS ESTRATÉGICAS são formuladas para influenciar a quem se pergunta e são baseadas em teorias lineares. A intenção atrás da pergunta é corretiva. Baseado em hipóteses formuladas sobre a dinâmica envolvida numa relação (familiar, por exemplo).

Quem pergunta chega à conclusão de que algo está “errado” e através das perguntas estratégicas tenta colaborar para mudar a relação, ou seja, tenta fazer (induzir) a pessoa que está sendo perguntada a pensar ou se comportar de uma maneira que ele mesmo perceba que é melhor para ele e para a relação.

PERGUNTAS REFLEXIVAS têm a intenção de influenciar a quem se pergunta de uma forma indireta, de ser facilitador e são baseadas em teorias circulares. Quem pergunta atua como um guia ou um encorajador para que a pessoa a quem se dirige a pergunta mobilize seus próprios recursos de solução de problema. O sistema é evolutivo e quem pergunta interage abrindo espaço para que a pessoa veja novas possibilidades e evolução no seu próprio ritmo.

As PERGUNTAS REFLEXIVAS são perguntas feitas com intuito de facilitar a auto cura em um indivíduo (ou família), ativando a reflexividade entre os significados de dentro de um sistema, de crenças pré-existentes, possibilitando a quem se dirige as perguntas gerar ou generalizar padrões construtivos de cognição e comportamentos por si próprios.

PERGUNTAS ORIENTADAS PARA O FUTURO são úteis, pois as pessoas com problemas, muitas vezes, estão preocupadas com o presente, ou com questões passadas, e vivem como se não tivessem futuro…Fazendo uma série de perguntas sobre o futuro, pode-se provocar os membros da família a criar mais de um futuro para eles.

Para concluir este comentário acho interessante não esquecermos das chamadas “perguntas que ainda não foram feitas” aos clientes.

Como saber se uma pergunta foi feita a uma determinada pessoa? Não é uma coisa tão imediata, mas normalmente as perguntas feitas, inclusive pelos terapeutas, são aquelas perguntas que seguem uma lógica dos sistemas sociais/profissionais/familiares que vivemos. Perguntas que fujam um pouco desta lógica muito provavelmente serão perguntas ainda não feitas. Por isto, nestas perguntas reflexivas a serem feitas quando se percebe o predomínio da lógica que estrutura a “história oficial” deveriam ser perguntas reflexivas que ainda não foram feitas. Vou dar um exemplo de uma destas perguntas.

Imaginem um casal que tenha buscado terapia porque depois de 15 anos de casados passaram a ter dificuldade de convivência e com produção de muita angústia. As perguntas feitas durante o processo narrativo segue uma sequência normal desde o que os levou a casarem até aquele momento, fazendo surgir a “história oficial”. Em determinado momento pode-se fazer esta pergunta:

Dirigindo-se à mulher:

– Me diga se eu compreendi direito. Você disse que “H” (marido) estava sempre disposto a fazer coisas para te ajudar ou simplesmente para te agradar. Certo? (Pergunta linear) O que você fazia naquele tempo e acha que você poderia fazer hoje para estimular este comportamento nele? (Pergunta reflexiva)

E assim passa-se a fazer estes tipos de perguntas reflexivas aos dois de forma a coloca-los novamente em contato com aspectos sadios e estimulantes para encontrarem diferentes opções e possível solução para o problema do sistema do casal. É um estímulo a transforma-los em agentes de mudança para recuperação do sistema.

Estes tipos de perguntas fogem um pouco da lógica daquilo que provavelmente eles sempre ouviam e cujas respostas acabavam por reforçar a “história oficial”.

A terapia de casal requer um approach sistêmico e dentro desta visão existem recursos interessantes e efetivos para o terapeuta usar.

Este artigo tem como objetivo fazer uma breve síntese da terapia de casal vista através do approach sistêmico e da Análise Psicodramática.

 

[1]Dias, Victor R.C. Silva, PSICODRAMA Teoria e Prática, 1987, Editora Ágora, pg 62 a 66

 

 

 

 

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