METÁFORA NO SETTING TERAPÊUTICO

Maria Lúcia Mendonça Coelho e Sérgio Rodrigues

Metáfora é uma figura de linguagem que consiste na transferência da significação própria de uma palavra para outra significação, em virtude de uma comparação subentendida. A metáfora é então uma palavra ou uma expressão que produz sentidos figurados por meio de comparações implícitas.

Por exemplo, quando dizemos “Ele é uma raposa”, estamos usando uma metáfora, isto é, usa-se o nome de um animal para descrever um homem que possui uma qualidade, astúcia, que é própria do animal raposa.

É interessante assinalar que não se deve confundir uma metáfora com uma comparação.

Na metáfora as palavras são usadas fora do seu sentido normal e baseia-se numa analogia. Ex.: “Este homem é uma fera”.

Na comparação existe um confronto de ideias usando-se um conectivo. Ex.: “Este homem é como uma fera”.

Como nosso tema é metáfora no setting terapêutico, eu acho oportuno diferenciar as metáforas universais daquelas criadas em um sistema, que pode ser o familiar, o social ou o profissional.

“Ele é uma raposa” é o que podemos chamar de metáfora universal, pois tem o mesmo significado em muitos lugares do mundo. Mas existem outros tipos de metáforas que fazem parte de uma codificação simbólica de um sistema, como o familiar por exemplo. Estes tipos de metáforas permitem percebermos que são metáforas, mas dentro daquele sistema.

Não são poucas vezes que temos dificuldades para expressar sensações ou mesmo conhecimento usando uma linguagem racional e clara. Quantas vezes não conseguimos “conectar” registros e lógicas que existem em nosso mundo interior.

Por isto mesmo acho interessante ressaltar, sobretudo quando acompanhamos os temas abordados num setting terapêutico, o uso de metáforas (universais ou de um sistema) durante a comunicação. Muitas pessoas não querem ou não conseguem expressar o que realmente pretendem falar, assim, acabam usando uma metáfora onde o seu real significado fica subentendido. Nestes casos cabe ao terapeuta identificar a presença de metáforas e depois identificar as dinâmicas envolvidas e que se manifestam através destas metáforas.

Se um cliente diz que “está sempre dando murro em ponta de faca” ou “tenho sempre que pisar em ovos” fica claro que intencionalmente ou não intencionalmente estas metáforas foram usadas para representar dinâmicas em que o cliente (ou o casal ou a família) então envolvidos.

Quando falamos no uso de metáforas nós estamos implicitamente nos referindo a um processo de comunicação verbal que muitas vezes representa um comportamento, não verbal.

Para deixar mais claro eu vou dar exemplos práticos deste tipo de metáfora construída a partir de comportamentos. Estes exemplos podem ser encontrados no livro Pescando Barracudas – A Pragmática da Terapia Sistêmica Breve, de Joel S. Bergman, Artes Médicas, Porto Alegre, 1996.

Neste trecho do livro ele identifica vários comportamentos de pacientes como metáforas comportamentais (analógicas). Vejam os exemplos:

Submarino: termo que representa metaforicamente o comportamento de pessoas que assumem uma posição de sujeição enorme em relação a outrem.

Ele compara os submarinos com os tanques, que são pessoas que assumem posições de superioridade em relação a outrem.

Os submarinos, naturalmente, são mais letais que os tanques, porque não podem ser vistos antes que um torpedo esteja alcançando a gente, e então é tarde demais.

Os tanques são pessoas poderosas, normalmente barulhentas, tipo uma escavadeira, que vão direto ao que querem e podem nos esmagar neste processo. Elas são pessoas sem tato, que esquecem que existem outras pessoas lá fora com sentimentos, que talvez sejam diferentes dos delas. Os tanques, evidentemente, têm canhões e podem ser perigosos. Entretanto, por serem mais lentos e barulhentos, eles são detectáveis e vulneráveis, especialmente para os submarinos. Quando eu era criança, via minha mãe como um tanque e meu pai como um submarino. Acreditem, os submarinos são mais poderosos. Os tanques geralmente são barulhentos porque são muito impotentes se comparados aos submarinos. Pag. 122 e 123

Depois este autor dá mais uma série de metáforas muito curiosas como a “conversa de beija-flor”, “conversa de merenguinho”, “casando com um alho”, “barracudas” que deu o nome ao livro, entre outras.

Estes são exemplos de metáforas que o terapeuta deve estar atento para identificá-las e buscar as dinâmicas que as criaram. Mas, do ponto de vista do terapeuta, a metáfora pode ser usada para estimular, de maneira intuitiva, a compreenção de algo pelo sistema familiar, mediante o uso da imaginação e de símbolos, sem a necessidade de análises ou generalizações.

Ela pode ajudar a conciliar significados conflitantes e isto pode ser um primeiro passo para a transformação de um conteúdo inconsciente em conteúdo explícito.

Através de metáforas os membros de um sistema familiar podem reunir seus conhecimentos sob novas formas, podem expressar assim o que sabem, mas ainda não está traduzido em palavras.

É interessante, no entanto, ter presente que embora a metáfora deflagre este processo de conscientização, ela sozinha não é suficiente para concluí-lo. A metáfora é impulsionada pela intuição e vincula imagens que à primeira vista seriam desconexas. Um recurso usado para reconciliar estas desconexões é a analogia. Ela é um processo mais reestruturado de reconciliação de contradições e de elaboração de distinções.

A analogia, sob este aspecto, é um passo intermediário entre a pura imaginação e o pensamento lógico.

Quando atendemos uma família com crianças arrumamos nosso setting terapêutico com papel, lápis, lápis coloridos e brinquedos.

Normalmente a criança não gosta de ficar sentada e participar da conversa terapêutica. Ela prefere brincar em um canto ou desenhar, mas geralmente está atenta à conversa dos adultos e dá seu ponto de vista sobre o que acontece com a família através dos desenhos ou e algum comentário. Alguns terapeutas até dizem que devemos ficar atentos às crianças nas sessões pois geralmente trazem a metáfora da dinâmica familiar, através de seus desenhos, de alguns comentários e comportamentos.

A utilização das metáforas terapêuticas, usadas pelo terapeuta ou pela família é mais um recurso de comunicação usado para que possamos entender a dinâmica do casal ou família.

Quando trabalhamos com uma equipe reflexiva, podemos usar metáforas para fazermos nossas reflexões após a conversa terapêutica.

A família traz um discurso e este discurso fala de sua dinâmica. Podemos ajudar a família a entender o que acontece com eles trazendo uma outra imagem, uma metáfora de algo que a equipe percebeu e que não é perceptível para a família.

Muitas vezes o sintoma, os problemas ou conflitos que a família traz podem ser trazidos sob a forma de metáforas para explicar ou até justificar a necessidade daquele sintoma. Esta metáfora pode ser uma imagem corporal, um desenho, uma poesia, uma palavra, um objeto, um personagem, etc…

O importante é que esta metáfora trazida em uma reflexão possa ser de utilidade para que o sistema em atendimento se reconheça nesta metáfora e os ajude a buscar mudanças.

Saber usar metáforas terapêuticas é importante, mas devemos cuidar para que não seja algo diferente demais e entre em temas que a família ainda não deseja ou consegue compartilhar. Da mesma maneira precisamos usar metáforas que realmente sejam compreendidas pela família ou casal e que tenha a ver com o discurso que estão trazendo.

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