EDUCAÇÃO PROFISSIONAL REFLEXIVA

INTRODUÇÃO

Sérgio Rodrigues

Toda reflexão precisa levar em consideração não só os aspectos conceituais de conteúdo, mas também o contexto onde este conteúdo se manifesta. As melhores reflexões, sobre qualquer tema, são aquelas que integram harmoniosamente os seus conceitos fundamentais e o contexto de manifestação.

A instrução e a educação fazem parte destes temas de grande interesse, sobretudo nos dias de hoje. Vou fazer uma síntese buscando considerar os aspectos de conteúdo e como podem e devem ser pragmaticamente aplicados no nosso contexto atual.

Evolução histórica do sentido das palavras Instruir e Educar

A palavra instruir vem do latim instruere. Esta palavra nasceu da raiz indo-européia *ster-, que significava estender, espalhar. No latim evoluiu para struere que significava acumular ou estender em camadas superpostas. Com a adição do prevérbio in- ao verbo struere, criando instruere, passou a significar “ajuntar em”, “amontoar em”, e a princípio sem ordem ou finalidade. Posteriormente, sofreu uma leve restrição semântica e passou a significar ajuntar ou amontoar segundo um fim: “ajuntar materiais para construir um edifício”.

Finalmente sobreveio nova mudança semântica e o vocábulo, do sentido concreto passou ao sentido abstrato de “ajuntar idéias”, como para estruturar a mente, que é a acepção vigente do “instruir” em português.

A palavra educar nasceu também de uma raiz indo-européia: *deuk, que significava levar, conduzir, guiar. Em latim esta raiz formou o verbo ducere, que com a adição do prevérbio e- ao verbo ducere criou educere que ficou associada à noção de “levar para fora, fazer sair, extrair”, e por metáfora: “dar a luz, produzir”.

Educare, cuja acepção primitiva era a mesma de educere, se especializou no sentido de “criar (uma criança), nutrir, fazer crescer”. Desta forma, visto à luz da etimologia, educare significava “trazer à luz a idéia”, ou em termos filosóficos, fazê-la passar da potência ao ato, da virtualidade à realidade.

A educação é um processo dinâmico. Ela é vital porque faz crescer a própria vida de dentro para fora. É mais do que uma simples agregação de conhecimentos, ela é uma maturação interior, um desenvolvimento de capacidades latentes.

Contexto atual

Hoje o nosso mundo não é mais o de certezas e de ordem. Vivemos em uma realidade que foi bem conceituada por Zygmunt Bauman como “Modernidade Líquida”, onde nada é sólido ou conserva a forma por muito tempo. Não se valoriza o permanente, mas o temporário. E, neste contexto, muitas pessoas acabam vivendo sem projetos, sendo massificados pelas engrenagens sociais que o fazem consumidor, ouvinte, telespectador, cliente, paciente, aluno, eleitor e transeunte. O sistema lhes tira “a subjetividade que as individualiza como pessoa”.

Tenho visto que alguns estudantes que estão numa fase mais adiantada de sua formação acadêmica começam a se perguntar (ou deveriam começar…) como poderá ser o seu futuro profissional. Eles começam então a perceber que o mercado é seletivo e premia os mais capazes para desenvolverem aquela profissão.

Mas como se destacar profissionalmente em uma atividade? Basta a “instrução” acadêmica?

Um diploma pode garantir a “instrução” da atividade profissional, mas a “profissionalidade”, que será reconhecida pelo “contexto profissional” onde ele atuará, dependerá de um processo de maturação interior e cultivo de valores e habilidades que irão se manifestar para expressar o conhecimento acumulado através da instrução.

Usando outras palavras podemos dizer que a escola tradicional pode ensinar tudo de psicologia, de arquitetura, de direito ou de medicina, mas não ensina o profissional a ser um psicólogo, um arquiteto, um advogado ou um médico respectivamente. Isto exigirá um processo de maturação que é conhecido como “prática” da profissão e nada mais é do que um processo reflexivo de educação profissional.

Assim sendo vamos colocar nosso foco de observação mais direcionado para os que estão na fase de formação profissional.

Educação reflexiva profissional[1]

Como podemos promover ou estimular uma formação acadêmica mais eficaz[2] neste contexto atual em que vivemos? Muitos são os caminhos e eu vou sintetizar uma destas abordagens usadas para a formação profissional.

A instrução escolar e posteriormente aquela acadêmica seguem regras e orientações pedagógicas muito interessantes e que buscam desenvolver bem este processo, de fora para dentro, para a acumulação de conhecimentos.

Mas neste processo cada pessoa representa um sistema de percepções construído pela participação em sistemas familiares e sociais, com filtros e mecanismos de fixação, de interpretação ou até mesmo de não percepção daquilo que vem “de fora”.

Além disto, o currículo de qualquer escola ou universidade não pode ter respostas para todas as variações e nuances dos problemas que um profissional encontrará na sua experiência prática.

O melhor caminho que se encontrou até hoje foi colocar lado a lado o aluno e o seu mestre no desenvolvimento de projetos comuns. Antigamente os profissionais de áreas técnicas que iniciavam uma carreira profissional deviam trabalhar junto com seus mestres nas oficinas até que estes professores avaliassem que o seu aluno tinha superado o nível de ter uma formação técnica transformando-se em um técnico.

O que é, por exemplo, uma residência médica (quando bem feita…) se não a aplicação deste mecanismo? Mas e nas outras formações profissionais?

Pensamos então nos estágios ou nos primeiros anos de um emprego, mas quantos destes processos são eficazes? Poucas destas experiências são eficazes quando se verificam os resultados na realidade. Por quê? Basicamente por dois grandes grupos de inadequações.

O primeiro deles é provocado pelo despreparo daqueles que ocupam o papel de “professor” na consciência e na preparação que o processo de educar requer numa relação “mestre – aluno” e dentro do contexto em que vivem.

O segundo é que em todo processo de transferência entre os comunicantes, eles precisam estar ligados entre si através de um diálogo que leve ao encontro. Eles precisam usar uma linguagem adequada e comum tendo como suporte uma consciência espontânea de todo este processo.

Vamos estruturar mais um pouco este processo

Na educação profissional clássica o processo está baseado na racionalidade técnica.  Nela, o ensino profissional é concebido em termos de fatos e procedimentos aplicados de forma não problemática a problemas instrumentais. É uma forma de ensino técnico ou de instrução técnica.

Na educação profissional reflexiva o desenvolvimento individual de conhecimento aplicável se desenvolve através de um questionamento (diálogo), muitas vezes conflitante, entre o conhecimento racional e o conhecimento tácito.

De forma muito sintética posso resumir dizendo que quando um profissional tem diante de si um problema a ser trabalhado, naturalmente vão surgindo respostas espontâneas e de rotina durante a sua ação. É um processo que se coloca espontaneamente, sem deliberação consciente e que funciona, proporcionando os resultados pretendidos, enquanto a situação estiver dentro dos limites do que aprendemos a tratar como normal. Mas se as respostas de rotina apresentarem uma surpresa, isto o levará à reflexão dentro do presente-da-ação que desenvolve.

A reflexão é de alguma forma um processo consciente. Este processo de reflexão tem a função crítica de questionar a estrutura dos pressupostos que utilizamos quando agimos profissionalmente em algum momento. Pensamos criticamente sobre o pensamento que nos levou a esta situação.

Os profissionais que se destacam em um contexto são exemplos da vivência de anos de uma experiência conduzida por um processo de aprendizado profissional reflexivo.

Desde o início eles “cultivaram” uma reflexão, muitas vezes conflitante, entre o conhecimento racional e o conhecimento tácito durante as ações que procuravam executar para resolver os desafios que lhe apareciam. Com isto estes profissionais adquiriram novas compreensões em situações incertas, únicas e conflituosas da prática, e que o conhecimento profissional clássico não fornece respostas certas prontas.

É assim que se desenvolve o processo de educação reflexiva profissional.

Mas como fazer para os que estão ainda numa fase de instrução – acadêmica, por exemplo – possam desenvolver este hábito e conquistar com mais rapidez uma profissionalidade melhor e com isto um reconhecimento mais cedo por parte da sua comunidade profissional?

Existem algumas possibilidades. Uma delas é uma reformulação didática do ensino universitário como o que se fez no curso de arquitetura da Universidade de Harvard e no de urbanismo do M.I.T.. Mas isto encarece os cursos e os alonga…, por isto vamos assinalar aquilo que os alunos podem e devem fazer.

Vamos nos colocar na posição de um aluno que precisa aprender uma competência nova que, no fundo, ele inicialmente não consegue entender exatamente o que precisa aprender. Só existe então o caminho onde ele pode aprender educando a si mesmo, e só pode se educar neste caminho começando a fazer o que ainda não compreende bem exatamente o porquê das coisas.

Então o professor lhe dirá:

Posso dizer-lhe que há algo que você precisa aprender e com minha ajuda você será capaz de aprendê-lo. Mas não posso dizer-lhe o que é de forma que você possa entender agora. Posso apenas arranjar para que você tenha o tipo certo de experiência por conta própria”.[3]

Tenhamos sempre presente que um projeto de ensino usando a técnica da educação profissional reflexiva só pode ser desenvolvido através de aulas práticas, ou de supervisões como nos cursos de psicologia. Ele se baseia na capacidade do instrutor e do estudante de se comunicarem efetivamente um com o outro.

Este diálogo deve acontecer num contexto de preparação do estudante. Deve fazer uso de ações, bem como de palavras e dependerá da recíproca reflexão-na-ação.

A reflexão-na-ação torna-se recíproca quando o instrutor trata cada etapa da produção do estudante como uma declaração contendo significados como “isto é o que eu acho que você quis dizer”.

Assim o estudante aprende a reconhecer e apreciar as qualidades importantes para sua preparação, mas também a produzir estas qualidades.

Neste diálogo também é muito importante saber ouvir e pode-se perguntar como seria a forma correta de ouvir? Normalmente sugiro que seja da mesma maneira como escutamos alguém que nos dá instruções de como chegar a um local desconhecido, quando somos nós quem terá que dirigir.

Quem observa de fora pode deduzir que este diálogo induza a uma “imitação” do professor por parte do aluno, mas o que o aluno deve buscar copiar (imitar) é o processo e não o produto.

 Na realidade, ao observar o processo de ação, tentando fazer como vi uma pessoa habilidosa fazer, reflito-na-ação tanto sobre o processo que observei quanto sobre minhas tentativas de reproduzi-lo. O que ele está realmente fazendo? E ao tentar fazer o que ele fez, pergunto: O que estou realmente fazendo? Posso quebrar em partes todo o gesto que imitei, tentando ver o que, em cada parte, torna minha tentativa de reprodução certa ou errada. Muitas vezes, neste processo, descubro novos significados nas operações que tento reproduzir[4]. Isto é “imitar” o processo.

 Mas tudo isto estará inserido em num determinado contexto composto por vários sistemas que incluem desde o sistema familiar ao sistema social nacional. Por isto é importante lembrar que “podemos levar uma cavalo à fonte, mas não podemos obrigá-lo a beber água”. Quero dizer com este dito popular que podemos ter todos os mecanismos à disposição para uma boa educação profissional reflexiva, mas será sempre necessário o interesse dos envolvidos.

No caso do aluno, ele deve se esforçar para se inserir em um contexto que contribuirá para a sua formação profissional e que quase sempre é muito diferente do contexto familiar e/ou social em que vive. Comportamentos adequados são necessários quando participamos de um determinado contexto que, por princípio, está nos preparando para viver profissionalmente no contexto da profissão escolhida. Sem esta adequação de comportamentos a um contexto qualquer nós estaremos sempre fora de sintonia com o que acontece neste contexto e a conseqüência pode ser deste a alienação recíproca ao outro extremo da rejeição.

Outra coisa importante para o aluno é a postura.

A sua “postura” pode ser considerada como um tipo de competência, já que ela envolve não só atitudes e sentimentos, mas também maneiras de perceber e compreender. Querer tentar algo é uma condição para adquirir a habilidade de fazê-lo. Duas coisas são importantes nesta postura para a educação reflexiva profissional. A primeira é a suspensão voluntária da desconfiança e a segunda e a busca de uma imitação reflexiva do processo (e não do produto). A imitação reflexiva demanda uma disposição de fazer o que o instrutor está fazendo, refletindo ao mesmo tempo sobre o que ele faz. É muito diferente da imitação cega e mecânica.

Já por parte do professor ele tem que levar também em consideração não somente os problemas substantivos da disciplina e dos conhecimentos que deve transferir. Ele deve também modelar as suas idéias às necessidades e potenciais de um estudante específico e a um estágio específico de desenvolvimento. Ele deve fazer tudo isto dentro de um papel que escolhe cumprir e em um tipo de relacionamento que deseja estabelecer com o estudante, levando em conta os perigos sempre presentes de defensividade e vulnerabilidade.

Não vou entrar aqui num maior detalhamento deste processo tão eficaz de educação profissional, mas posteriormente poderemos ir agregando aplicações deste processo principalmente na formação do profissional da psicologia.


[1] Para aquelas pessoas que se interessarem por um aprofundamento neste tema, eu sugiro ler o livro de Donald A. Schön, Educando o Profissional Reflexivo, Artmed Editora S.A., 2000.

[2] Acho oportuno diferenciar a palavra “eficaz” da palavra “eficiente”. Para o estudioso Peter Drucker, “a eficiência consiste em fazer certo as coisas e a eficácia  em fazer as coisas certas.” É uma diferença sutil, e eu uso estas palavras com os seguintes sentidos: a “eficiência” está relacionada com fazer o máximo com o mínimo de recursos. É algo mais direcionado à produtividade… Eu uso o termo “eficaz” quando quero destacar as escolhas mais adequadas e, depois de escolhido,  o que se deve fazer para atingir com menos tentativas os resultados esperados.

[3] Educando o Profissional Reflexivo, Donald A. Schön, Artmed Editora S.A., 2000, pag. 79

[4] Educando o Profissional Reflexivo, Donald A. Schön, Artmed Editora S.A., 2000, pag. 92

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