CONTRATO CONJUGAL

Luis nasceu em São Paulo capital como filho único de uma família de origem italiana. Seu pai era engenheiro e sua mãe advogada. Estudou em escolas particulares, praticou esporte de maneira competitiva e se formou em engenharia. Neste período teve muitas experiências, viajou bastante e viveu intensamente amizades, conflitos e namoros.

Lia nasceu em Lages no interior de Santa Catarina e era a caçula de três irmãos em uma família de origem alemã. Seu pai tinha uma fazenda e ela cresceu entre as atividades da escola pública e o campo. A faculdade que escolheu foi a de agronomia. Até chegar à universidade ela teve poucas amizades, mas muito confiáveis. 

Luis passou a trabalhar em uma construtora de estradas e ficou um bom período em Lages onde conheceu Lia numa festa no clube local. 

Esta é uma história como tantas outras. Eles se conheceram e logo foram descobrindo que a relação deles era diferente daquilo que tinham experimentado até então. A sensação que sentiam quando estavam juntos era essencialmente a de prazer. Cada encontro era precedido de expectativas sobre o que poderiam fazer e de como poderiam agradar o companheiro. Era como se cada um deles estivessem construindo um “mapa” para chegar ao coração do outro.

O mapa de cada um ia se enriquecendo a cada dia com novos caminhos para agradar ao companheiro. Já continham até “atalhos” para atingir os objetivos desejados em momentos de maior tensão.

No mapa que Luis ia construindo, e entre tantas coisas, ele levava em consideração muitos dos hábitos familiares da Lia pelo fato dela vir de uma família alemã e ter tido uma adolescência em zona rural, tranqüila.

No mapa que Lia construía a cultura pragmática do paulistano, suas muitas viagens ao exterior e um pouco da dramaticidade que denunciava a família de origem italiana eram levadas em conta.

Depois de algum tempo os dois tinham construído mapas considerados precisos e eficazes para chegar ao coração do outro. As sensações e o prazer da convivência comprovavam que o outro era exatamente o que desejavam ter como companheiro.

Nesta fase mais adiantada do relacionamento, mas inconscientes das naturais dinâmicas humanas, eles passaram a buscar a confirmação do que cada um sentia pelo outro assim como as provas de reciprocidade. Este processo incandescente assinalou o estado nascente do enamoramento e a certeza de que deviam casar.

Luis conseguiu se estabilizar profissionalmente em Campinas (SP) e Lia conseguiu uma atividade profissional na mesma cidade. Isto os levou ao casamento formal.

Para um observador externo este processo de conhecimento, enamoramento e casamento de Luis e Lia construiu um terceiro elemento: “o casal”.

A relação de casal deles ficou então estruturada através de um acordo que metaforicamente representei naquele mapa de conhecimento recíproco. Este mapeamento que assinalou o conjunto recíproco de concordâncias, de discordâncias, de cumplicidades, de valores, de atração, de desejos, de emoções, de sentimentos e tantas outras coisas que se materializaram na formalização de uma vida e de projeto em comum é o que poderemos chamar de Contrato Conjugal.

Este contrato, com parte do conteúdo explícita e parte implícita, continha uma série de valores, conceitos e dinâmicas que sustentavam a estrutura e o funcionamento do sistema formado pelo casal.

Luis e Lia tiveram dois filhos e o sistema se ampliou. Luis e Lia trabalham e o sistema do casal passou a ter ligações e até sobreposições com os respectivos sistemas profissionais.

O tempo foi passando, os filhos crescendo e a carreira profissional sendo desenvolvida com maior ou menor sucesso. Luis e Lia prosseguiram vivendo, tendo novas experiências e confirmando, adaptando ou revendo valores. Novos valores também foram sendo incorporados por cada um deles.

A relação de casal passou a ter altos e baixos. Muitas vezes parecia que o que indicava o mapa (ou o Contrato) que construíram durante o enamoramento não funcionava como antes. Começaram então a surgir pequenos confrontos e, às vezes, para fugir do confronto, respondia-se com o silêncio ou rebatia-se a pergunta com outra pergunta. Isto incomodava mais ainda… O silêncio é uma forma não verbal de comunicação e tem um aspecto pragmático de comunicação. É o olhar que o acompanha ou o “não olhar”, com todas as interpretações que lhe decorrem.

A resposta com uma pergunta, ou com toques cheios de “veneno” podem buscar uma forma de se impor na relação. É como num jogo de tênis em que a bolinha recebe um toque e vai ao campo adversário, recebe outro toque e retorna ao campo original para receber mais outro toque e assim sucessivamente.

Com o tempo e a repetição, esta pontuação (bate-rebate) na comunicação não só restringiu as possibilidades de novas respostas como começou a redefinir a natureza da relação do casal.

Um dia surgiu espontaneamente a pergunta: por quê? O que estava acontecendo? Por que as coisas não eram como antes? E aquele mapa (ou Contrato Conjugal)? O que estava errado com ele? A angústia os estimulou a buscarem uma ajuda externa através de uma terapia de casal.

O terapeuta que lhes foi indicado tinha um approach sistêmico e logo ficou claro que o trabalho do terapeuta começou e manteve sempre o foco sobre “o casal”, elemento que muitas vezes vinha sendo esquecido por eles com seus focos de atenção voltados para suas individualidades.

Neste processo de busca dos porquês da angústia que se instalou no sistema relacional do “casal” eles foram ajudados pelo terapeuta através da criação de um metassistema[1] como espaço intermediário. Neste espaço intermediário do setting terapêutico o casal e o terapeuta puderam ver mais precisamente os conteúdos, as dinâmicas, os valores, as pontuações entre tantas coisas que se instalaram no sistema do casal.

O “Contrato Conjugal” foi sendo visto e revisto. O “casal” foi confrontando o Contrato Conjugal elaborado na fase de enamoramento com a relação que acontece diariamente no sistema relacional do casal.

Contrato Conjugal é uma metáfora utilizada para representar este mapeamento da relação do casal durante o processo do namoro e em suas fases seguintes do relacionamento conjugal. Este contrato é dinâmico. Deve ser flexível e atualizado.

Quando duas pessoas se conhecem, se atraem e desejam construir uma relação, seja ela qual for (casal, amizade, profissional, etc.) elas iniciam um processo de observação um do outro. O que se fala e o que se faz determinarão, na pessoa que observa, a abertura ou o fechamento para as conversas e para a construção da imagem que um elabora do outro. O observador busca definir quem é a pessoa observada. Constrói uma imagem que lhe diz o que poderá esperar do observado.

 

“Uma decorrência importante desta perspectiva é deixar claro que uma pessoa é, na verdade, muitas pessoas. Torna-se uma pessoa em uma determinada circunstância, e outra pessoa em outra circunstância. No entanto todas estas pessoas surgem da mesma pessoa, possuidoras de algumas características básicas, que a torna essa pessoa”.[2]

 

Tendo isto em mente, quanto mais correta for a percepção e aceitação do outro melhor será a negociação de como vão conviver e se vincular nesta vida.

Este processo, como já foi dito, nem sempre é explícito entre eles e, muitas vezes, nem para o indivíduo que está negociando uma maneira de se relacionar.

Desta maneira vamos estabelecendo acordos, regras e contribuições para esta relação.

Faço um exemplo.

Lia conversa com Luis sobre uma situação familiar que presenciavam: o pai de Lia ficou tenso, preocupado e agressivo ao receber um telefonema de um familiar da Alemanha.

Lia então explica a Luis que existe um problema em sua família ligado a histórias políticas e acrescenta:

– Isto é o que eu posso te dizer. Peço a você que nunca pergunte, que se preocupe ou que interfira quando ouvir algo deste gênero quando estivermos juntos.

Luis respondeu:

– Ok, combinado, mas se um dia você mudar de idéia e quiser conversar comigo sobre este tema e eu puder ajudar, estarei às ordens.

Muito bem, o sistema formado pelo “casal” Luis e Lia pertence a sistemas mais amplos e contem sistemas menores. Durante as sessões formavam-se metassistemas de interação entre sistemas naturais ligados ao sistema do “casal”. Apareceram interações entre o casal e a escola dos filhos, entre o casal e o terapeuta ou entre o casal e as atividades profissionais, por exemplo.

A finalidade destes metassistemas é de fato restituir a individualização de cada um destes sistemas cuja mistura e desorganização os levou a buscar a ajuda terapêutica.

Luis e Lia refizeram o Contrato Conjugal, atualizando-o e desincorporando sistemas que se fundiram com o tempo. O sistema conjugal recuperou a estabilidade que buscava.

Antes de concluir, acho oportuno e à título de atualização, destacar que já existem casais que se interessam – antes do casamento –  por uma breve terapia de casal para que se conscientizem melhor da precisão dos mapas que construíram na relação com o companheiro(a) e que se transformarão no Contrato Conjugal do seu projeto de casal.

Campinas, 12 de maio de 2011

Maria Lúcia Mendonça Coelho


[1] Metacomunicação à metassistema. No setting terapêutico não usamos a comunicação apenas para comunicar, mas também para comunicar sobre a comunicação. Defini-se metacomunicação como a comunicação sobre a comunicação, o que inevitavelmente acontece no setting terapêutico, onde os esquemas e as lógicas conceituais que usamos para nos comunicar são evidenciados.

Metassistema neste caso é um sistema onde se reflete sobre os elementos componentes da sessão terapêutica, ou seja, o elemento “casal”, que é um sistema e o outro elemento, a relação casal/terapeuta, que também é um sistema.

O metassistema do setting terapêutico, também pode ser visto como uma tela de projeção, de início vazia, mas na qual aos pouco vão aparecendo conteúdos inesperados, novas visões destes conteúdos e uma nova história passa a ser vista e contada.

[2] Tom Andersen, Processos Reflexivos, Editora NOOS, 2ª edição ampliada, 1991, pg. 45

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