TÉCNICAS DA ANÁLISE PSICODRAMÁTICA NO ATENDIMENTO DE CASAL E FAMÍLIA

Técnicas da Análise Psicodramática no atendimento de Casal e Família

Maria Lúcia Mendonça Coelho

Introdução

Geralmente os casais e famílias que buscam uma terapia estão angustiados e em crise por problemas nas suas relações.

Um dos primeiros objetivos na terapia de Casal e Família é restabelecer o diálogo franco e sincero, desenvolvendo a capacidade de negociar e buscar propostas de mudanças.

Estas são técnicas utilizadas na Análise Psicodramática e Abordagem Sistêmica que mais utilizo no atendimento de Casais e Famílias.

É sempre muito importante poder aprofundar o conhecimento teórico destas abordagens para que estes instrumentos possam ser utilizados adequadamente.

As técnicas descritas abaixo facilitam e propiciam a condução da terapia para que possamos ajudá-los a resolver ou amenizar seus conflitos.

Duplo

O Duplo é uma técnica do psicodrama que é feita por um ego-auxiliar ou, algumas vezes, pelo próprio terapeuta que expressa, num determinado momento aquilo que o cliente não está conseguindo expressar, isto é, dando voz ao que ela não consegue colocar em palavras.

Inicialmente o ego-auxiliar adota postura corporal do protagonista (cliente) procurando ter com ele uma sintonia emocional. A partir daí expressa questões, perguntas, sentimentos e ideias, fazendo com que ele se identifique com este duplo; possibilita assim um insight do protagonista.

No atendimento esta técnica do duplo pode ser manejada pelo terapeuta da maneira que acabamos de descrever ou pode ser somente verbal utilizando apenas o princípio da técnica como ocorre com o uso de frases como “eu no seu lugar sinto que…”

O terapeuta, na função de “ego-auxiliar”, assume a comunicação não verbal do paciente e fala a partir das emoções que capta deste.

Na terapia de casal e família podemos usar esta técnica, com a permissão do cliente, enquanto ele estiver na Tribuna Livre, e demonstra uma certa dificuldade para expressar suas opiniões. [1]

Inversão de papéis

Essa provavelmente é uma das técnicas clássicas muito utilizada num processo clínico. Propicia além da vivência do papel do outro, o emergir de dados sobre o próprio papel que, sem este distanciamento, não seria possível. Consiste em assumir o papel do outro como ele o percebe na sua presença. Funciona para pessoas que estejam de alguma forma intimamente ligadas entre si (família, amigos, colegas de trabalho, etc.).

Para Moreno os indivíduos vivem o seu papel e o desta pessoa simultaneamente, aumentando a sua compreensão acerca da outra pessoa (p.ex. pai e filho). Isto permite que as pessoas percebam não só as ações da outra pessoa, como também as suas, clareando mal-entendidos, injustiças, etc., e permitindo uma aproximação.

As informações colhidas nessa técnica se prestam a várias funções: saber melhor como o paciente se sente visto pelo papel complementar; enxergar uma nova verdade através da tomada do ponto de vista do outro; responder para si mesmo as perguntas que tem por fazer ao papel complementar.

Esta técnica também pode fornecer uma imagem de si mesmo como em um espelho, para atingir também neste caso uma visão que exibe melhor a si mesmos através dos olhos de outra pessoa. A inversão de papéis pode de fato ser muito útil para desenvolver relações dentro dos grupos de qualquer tipo.

Esta técnica é muito usada na terapia de casal e família sempre com o objetivo citado acima favorecendo a comunicação e percepção do outro. Geralmente pedimos a um dos membros do sistema presente que se sente na cadeira da Tribuna Livre e fale como se fosse alguma outra pessoa presente durante a entrevista com o terapeuta.

Exemplo de consigna dada: “sente-se nesta cadeira e fale como se fosse o seu pai. Procure entrar em contato com o seu pai que existe dentro de você, como ele fala, como ele se senta, como ele se expressa…Vou entrevistar você como se fosse o seu pai”.

OBS.: O terapeuta deve aquecer o cliente no papel que deverá desempenhar, fazendo perguntas iniciais como qual é o seu nome, quantos anos o senhor tem, o que o senhor faz na vida, etc. Continuamos a entrevista-lo sobre como ele se vê nesta família (ou relação), como ele acha que é visto, como ele percebe o problema que estamos abordando, etc.

Espelho

Técnica através da qual o protagonista olha uma cena em que está envolvido. Isto permite à pessoa (protagonista) olhar fora dela algo que ela produziu.

Nesta técnica o terapeuta repete o discurso do cliente em direção do próprio cliente e, após a resposta, troca de papel com o cliente e torna a repetir o diálogo. Desta forma força-se o cliente a conversar consigo mesmo. Durante o espelho o terapeuta no papel do cliente deve sempre pressionar visando uma resposta do cliente à sua pergunta ou questão proposta pelo próprio cliente quando neste lado da conversa. [2]

Espelho que retira

É uma modalidade da Técnica do Espelho em que o terapeuta repete o discurso do cliente em direção a um ego-auxiliar ou almofada enquanto o cliente fica na posição de observador. [2]

Geralmente usamos esta técnica no atendimento de Casal e Família quando queremos trazer o discurso feito até então pelos membros do sistema, possibilitando rever e ouvir novamente no papel de observador.

Esta técnica pode ser usada num dado momento da terapia antes de se fazer um clareamento da dinâmica que estão apresentando, ou para atualizar algum membro que não estava ainda presente no atendimento.

OBS.: usamos a técnica do Espelho, que na realidade é a técnica do Espelho que Retira, na terapia de casal/família com alguns objetivos específicos. O terapeuta repete o discurso do cliente (casal/família) enquanto o cliente fica no papel de observador de si mesmo e desta forma força-se o cliente a conversar consigo mesmo. Muitas vezes o cliente traz um discurso repetitivo, sem qualquer reflexão do que fala, e sem apresentar qualquer proposta de mudança. Neste caso esta técnica dribla as possíveis defesas instaladas, ajudando no processo de reflexão e contato com as próprias possibilidades. Esclarecemos ao casal que iremos repetir o discurso que trouxeram nas sessões até o presente momento. Assim sendo vamos assumindo o papel de cada um e repetindo o seu discurso.

Espelho da relação

Esta é uma técnica onde utilizamos o princípio do espelho e o terapeuta fala e se expressa como se fosse a relação e “dando voz” a ela. Exemplo de consigna: “eu vou falar como se eu fosse a relação de vocês”. Exemplo da fala: “eu sou a relação entre fulano e ciclano e estou num grande impasse, mas…”

 Tribuna Livre

Esta é uma técnica muito interessante e útil para ser aplicada em trabalhos com casal ou família. É válida também para trabalhos em grupo.

Seus objetivos principais são o de exercitar a escuta e evitar as interrupções e contraposições (bate-boca) que costumam ocorrer em terapia de família.

Esta técnica consiste em colocar uma cadeira em destaque no setting terapêutico. Esta cadeira será ocupada em um sistema de rodízio por cada membro do casal ou da família e poderá “falar livremente” sobre as consignas passadas pelo terapeuta.

Um modelo de consigna poderia ser este:

“A partir de agora vamos trabalhar com vocês utilizando uma técnica chamada de Tribuna Livre. Quem sentar na cadeira que coloquei em destaque só falará comigo como se estivéssemos só nos dois nesta sala. Os demais devem ouvir com atenção e em silêncio”.

Os demais membros do casal ou família não podem interromper ou falar. Devem “ouvir”. Se quiserem podem anotar para comentar quando chegar sua vez. O terapeuta controla também o tempo de fala de cada um, podendo interromper ou questionar quem está na “Tribuna”.

O terapeuta vai estabelecendo a seqüência dos ocupantes da “Tribuna Livre” até que julgue adequado encerrar. Cada membro do casal ou da família pode ocupar a “Tribuna Livre” por várias vezes.

Se o terapeuta julgar adequado ele pode emitir sua impressão e ouvir a avaliação dos participantes

Cadeira Vazia

A cadeira vazia é uma espécie de psicodrama imaginário em que o paciente ora assume seu próprio papel, ora o papel da outra pessoa em questão, sentando-se na cadeira vazia e representando a pessoa à qual deseja falar algo ou dela obter resposta, explicação ou qualquer outra fala que proporcione o fechamento da gestalt aberta.  É uma técnica muito usada também em trabalhos de despedida, nos processos de “dizer adeus”, seja a alguém que já morreu ou afastou-se definitivamente do paciente

A técnica da cadeira vazia consiste em colocar uma cadeira vazia no setting na qual, imaginativamente, estará sentado um personagem qualquer a quem o paciente e o terapeuta devem se dirigir. É uma vivência útil para resolver situações inacabadas, nas quais a pessoa não consegue estabelecer contatos satisfatórios nas suas inter-relações devido à existência de sentimentos como raiva, mágoa e ressentimento, conscientes ou não.

Também usamos esta técnica quando um membro da família aparece frequentemente nos discursos dos clientes interferindo em suas dinâmicas, mas que por alguma razão não estão presentes na sessão.

Átomo social

O átomo social é uma configuração social das relações interpessoais que se desenvolvem a partir do nascimento. Na sua origem compreende mãe e filho. Com o passar do tempo vai aumentando em amplitude com todas as pessoas que entram no círculo da criança e que lhe são agradáveis ou desagradáveis e aqueles que reciprocamente a têm como agradável ou desagradável. [4]

Cada indivíduo pode se reconhecer em um número indefinido de átomos sociais (átomo familiar, átomo profissional…). Estes átomos sociais se cruzam, se interceptam e se multiplicam no curso de uma vida humana.

Cada um de nós é protagonista e artífice da formação, do crescimento, da dissolução e do renascimento de todos os átomos sociais que se compõem e se decompõem no caleidoscópio do universo humano. [3]

Esta técnica pode ser aplicada com o terapeuta pedindo ao paciente para apresentar dramaticamente as pessoas que lhe são de fato emocionalmente significativas. Estas podem ser próximas ou distantes, mortas ou vivas, do presente, do passado e até mesmo personagens imaginadas do futuro.

“Representa-se a si mesmo e a todos os membros do seu meio imediato do seu átomo social. Procura mostrar como atua em situações decisivas diante deles e como eles atuam nestas situações em relação a ele. Então, tenta mostrar como atua em situações chave. Procura reviver estas situações tão fielmente quanto possível. Apresenta a si mesmo de uma forma unilateral e subjetiva e apresenta diversas pessoas do seu meio, unilateral e subjetivamente, e não como elas são. Representa seu pai, sua mãe, seu irmão, sua esposa e qualquer membro do seu átomo social, com todo tendencionismo subjetivo. Representa e revive as correntes emocionais que enchem o átomo social. [3]

Átomo da crise

Esta é uma variação do átomo social e consiste em pedir ao casal ou à família para trazer psicodramaticamente as pessoas que estão envolvidas na crise e nas questões de angústia.

O procedimento é o mesmo do átomo social, mas com a seguinte consigna:

“Pensem nas pessoas que fazem parte deste tema (da crise, da dinâmica) que vocês estão trazendo. Imaginem que cada uma delas está sentada numa cadeira da sala. Falem para elas tudo que acharem que devem, que querem e que precisam falar”.

Se for um casal, eles trazem o átomo da crise isto é, as pessoas do conflito, e um por vez fala para cada uma das pessoas do átomo através da técnica da Cena de Descarga. Exemplo:

  • Cliente: “Vou falar para meu sogro! ”
  • Terapeuta: “Isto! Imagine que ele está sentado nesta cadeira e fale tudo que deseja para ele”.

Os outros membros apenas ouvem e, quando chegar a vez deles, farão o mesmo.

O terapeuta que está conduzindo a sessão pode ajudar o cliente a fazer a Cena de Descarga usando a Técnica do Duplo, isto é, ajudando a falar coisas que o cliente já falou em outras sessões, mas neste momento não está conseguindo falar.

Podemos também pedir que imaginem as pessoas que estão envolvidas na queixa que estão trazendo. Imaginar que estas pessoas citadas estão presentes nesta sessão ouvindo todos os seus discursos. Pedimos que os membros presentes nesta sessão invertam o papel com estas pessoas falando como se fossem elas e assim serão entrevistados pelo terapeuta.

A técnica da Cena de Descarga está descrita a seguir.

Cena de Descarga [5]

A Cena de Descarga é uma técnica sistematizada e desenvolvida por Victor R.C.S. Dias. Uma Cena de Descarga pode ser sobre uma situação que nunca tenha acontecido e que podem até não acontecer na vida do cliente, mas com o auxílio desta técnica, pode-se fazer com que ocorram e os objetivos daremos após a descrição das duas subdivisões desta técnica.

Cena de Descarga Direta: é feita pelo próprio cliente estimulado pelo terapeuta, expressando e comunicando seus conteúdos internos para um personagem do seu mundo externo (relacional) ou para um personagem do seu mundo interno (intrapsíquico). Estes personagens podem ser representados por almofadas, cadeiras vazias, objetos da sala e, quando existe a possibilidade, para um ego-auxiliar.

Cena de Descarga pelo Espelho: é feita pelo próprio terapeuta usando a técnica do espelho. O cliente fica com o papel de observador, enquanto o terapeuta expressa e comunica os conteúdos, contidos ou reprimidos, do cliente para personagens do seu mundo interno (intrapsíquico). Nestes casos, muitas vezes, o terapeuta acaba acoplando ao espelho conteúdos latentes (Técnica do Duplo), aumentando assim a eficiência da descarga.

Objetivos:

  1. Reduzir o superaquecimento do cliente pela exacerbação dos conteúdos internos e conseguir um mínimo de postura reflexiva para examiná-los.
  2. Evitar cargas transferenciais para o terapeuta, dirigindo o fluxo de conteúdos do cliente para personagens do seu mundo externo ou para figuras internalizadas em questão, e não para o terapeuta.

Bibliografia de referências

  1. Lições de Psicodrama introdução ao pensamento de J.L.Moreno, C.S. Gonçalves, José R.Wolff e Wilson C. de Almeida, Editora Ágora, 1988
  2. Análise Psicodramática – Teoria da Programação Cenestésica, Victor R.C. Dias, Editora Ágora, 1994
  3. Psicodrama, J.L.Moreno, Editora Cultrix, 1997
  4. Psicodrama de Grupo e Psicodrama, J.L.Moreno, Fondo de Cultura Económica, 1996
  5. Psicopatologia e Psicodinâmica na Análise Psicodramática, Victor R.C.S. Dias e Colaboradores, Volume III, Capítulo 6, Editora Ágora, 2010
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One Response to TÉCNICAS DA ANÁLISE PSICODRAMÁTICA NO ATENDIMENTO DE CASAL E FAMÍLIA

  1. saber mas disse:

    No habia visitado tu blog por un tiempo, porque me pareció que era pesado, pero los últimos posts son de buena calidad, así que supongo que voy a añadirte a mi lista de sitios web cotidiana. Te lo mereces amigo. 🙂

    Saludos

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