A PROPÓSITO DE UM TEXTO SOBRE A FAMÍLIA

Esta reflexão foi escrita a partir de um texto do Frei Betto sobre a família

Sérgio Rodrigues

 FAMÍLIA: SÍNTESE HISTÓRICA 

Sem buscarmos as remotas origens biológicas e sociais do que veio a se chamar família, já sabemos que a família era o núcleo originário e alicerce da sociedade romana. Ela era o conjunto dos bens (dos escravos quando existiam) e das pessoas sujeitas ao poder do pater familias.

Originalmente a família existia da união entre o homem e a mulher, considerado o instituto humano fundamental, que garantia a sobrevivência da gens – um grupo de famílias – que se considerava descendente de um antepassado comum.

A família romana não era uma instituição privada, mas pública. Casar e gerar uma descendência eram, ao mesmo tempo, uma obrigação e uma necessidade social.

Tudo acontecia dentro da família: a procriação, a instrução dos filhos, as cerimônias religiosas e as atividades econômicas. Consequentemente, a estrutura das famílias se refletia na estrutura da sociedade.

O marido tinha todos os poderes sobre bens e sobre as pessoas que faziam parte da família. Somente ele podia comprar e vender. Ele se ocupava em primeira pessoa da educação dos filhos (durante a época monárquica e primeira época republicana). Ele executava os sacrifícios e cerimônias religiosas em honra das divindades.

Imagina você que se a mulher traísse o pater familias ou até se ela roubasse vinho na adega…, ele poderia matá-la sem sofrer qualquer tipo de processo. De qualquer forma o direito romano previa, obrigatoriamente, o divórcio em caso de adultério. Mesmo o homem poderia ser considerado um adúltero se traia a mulher com uma outra mulher casada. Neste caso o homem não era condenável por ter traído a mulher, mas porque tinha seduzido a mulher de um outro homem livre. O pater familias podia ter relações extraconjugais livremente, com escravas e mulheres livres.

Por outro lado a autoridade era tal que permitia vender os filhos como escravos, se fosse considerado como necessário.

Ao lado do pater familias tinha a mater familias, isto é a mulher em condições de dar ao marido filhos legítimos. Na realidade quando uma jovem se unia em matrimônio ela se tornava uma mater familias. Isto indicava o reconhecimento que o direito romano fazia da majestade e da dignidade da mulher romana nas suas funções de mãe. Quando a mater familias se tornava mãe passava a ser chamada de domina.

A mater familias dirigia o trabalho dos escravos dentro da casa. O seu trabalho principal era aquele de tecer e confeccionar roupas para si e para os membros da família. Raramente se permitia receber visitas.

Durante os primeiros anos de Roma, também conhecidos como Período Republicano que foi até 31 a.C., a relação entre os cônjuges era representado como uma relação de amigos fieis, que se ajudavam e sustentavam na vida pública. Mas na chamada Idade Imperial de Roma (31 a.C. – 276 d.C.) a família sofreu uma profunda evolução.

Depois do IIº século depois de Cristo assistiu-se um enrijecimento do vínculo matrimonial, que foi reforçado pela difusão do cristianismo.  A relação entre os cônjuges passou a ser, pelo menos idealmente, sobre a recíproca fidelidade. Reduziu-se o poder do pater familias e se afirmou uma relativa paridade entre os dois sexos dentro de uma família. Do ponto de vista moral, por outro lado, repudiou-se o divórcio que tinha intensa difusão.

Feita esta introdução histórica posso dizer que a função primária da família é aquela de reproduzir a sociedade quer seja compreendida de um ponto de vista biológico, mas, sobretudo, de um ponto de vista sócio cultural. Por isto a família e a sociedade mudam conforme as épocas e as religiões do mundo.

Se considerarmos as tipologias de famílias no ocidente, nota-se com o passar do tempo uma maior diversificação dos tipos de famílias e uma diminuição do modelo “tradicional”. Eis um exemplo de um estudo feito nos EEUU entre os anos 1970 e 2000.

A paleontologia hipotizou que o nascimento das famílias nucleares foi consequência de uma redução no tamanho dos animais, que poderiam então ser caçados sem a necessidade de um grupo enorme de pessoas que deveriam necessariamente viver juntas de forma colaborativa.

Em sociologia classificam-se vários tipos de famílias compostas por membros que vivem juntos:

  • Conjugal: composta de genitores e de seus      filhos
  • Monogâmica: quando são só os dois genitores
  • Poligâmica: quando existem mais mães e um só      pai
  • Poliândrica: quando existem mais pais e uma só      mãe
  • Poliginândrica ou do matrimônio de grupo:      quando existem mais pais e mães conviventes.
  • Consangüínea: como sinônimo estendido da      família, composta dos genitores, de suas famílias de origem e de seus      descendentes.
  • Monogenitorial: composta por um só pai e de      seus filhos, gerados ou adotados.

É interessante notar que a poliginandria não é só coisa de algumas populações indígenas, mas aconteceram ocasionalmente em alguns grupos de comunidades fundadas entre os séculos XIX e XX. Um exemplo particularmente longevo foi aquele da comunidade Oneida, fundada pelo pastor Humphrey Noyes em 1848.

Noyes assegurava que ele e seus seguidores tivessem recebido uma santificação imediata, portanto era impossível para eles cometer pecado e, portanto, o matrimônio (visto como propriedade privada) foi abolido por representar ciúme e exclusividade.

A Comunidade Oneida praticava o comunismo sexual, compartilhava a responsabilidade paternal, e funcionou regularmente como um grupo matrimonial até aproximadamente 1878-1881.

A Comunidade Kerista praticou o matrimônio de grupo em São Francisco entre 1971 e 1991.

Mas deixando de lado a conceituação sociológica e passando a usar uma linguagem mais universal, podemos dizer que uma família nuclear consiste em dois genitores e os seus filhos legais, composição que a diferencia da família estendida da sociologia. Este tipo de família se tornou típica das sociedades industriais. Com o passar do tempo a imagem de uma família está se deslocando lentamente para uma ideia de um pacífico casal divorciado com a custódia conjunta dos filhos.

Existe em nossa cultura a ideia de que a família nuclear é a melhor alternativa para assegurar aos membros das gerações sucessivas o devido suporte emotivo e para ajudá-los a encontrar seus caminhos.

Atualmente cresce notavelmente o fenômeno da convivência de quem não deseja ou no momento não pode se casar. É notável o crescimento a formação de famílias de homossexuais assim como cresce o reconhecimento jurídico destas formas de estruturas familiares.

Acho interessante termos em mente este processo evolutivo do conceito de família e que ainda está em curso. Sem ele podemos ficar discutindo e interpretando este tema através de um modelo fixo.

Pelo que este breve resumo nos assinala, a família reflete culturalmente a sociedade em que se desenvolve formatando assim não só necessidades pragmáticas destas sociedades, mas seus valores morais, definidos essencialmente pelas religiões, e éticos estabelecidos pela legislação em vigor.

Portanto, quando começamos a falar sobre um tema qualquer é importante tentar entender que tipo de visão da vida (filtro da vida) os debatedores possuem. Não temos como fugir deles… Eu e você também temos estes filtros. Os desentendimentos acontecem quando quem conversa possui “filtros” muito restritivos ou construídos em uma sociedade muito diferente. Nestes casos as visões podem se tornar inconciliáveis.

Quando as visões da vida são mais amplas, mais flexíveis, menos dogmáticas, mais universalistas ou mais sistêmicas, o entendimento e a comunicação são mais compartilháveis.

Vamos então a um texto do Frei Betto que colocarei em azul . Faço as minhas considerações sobre as suas colocações em negro e itálico.

Família virtual

(http://amaivos.uol.com.br/amaivos09/noticia/noticia.asp?cod_Canal=53&cod_noticia=14955)

FREI BETTO

A desinstitucionalização da família é um dos aspectos mais marcantes da crise da modernidade. O que é, hoje, uma família? Onde os vínculos inquebrantáveis da instituição agregadora de avós, pais, filhos, tios, primos e netos?

A re-configuração dos papéis sexuais, a instabilidade dos laços conjugais, o divórcio, o re-casamento fragmentam o núcleo familiar. As crianças circulam entre vários lares autônomos em contato com diferentes adultos que lhes transmitem, como valores, tantas opiniões e atitudes divergentes que elas ficam absolutamente convencidas de que tudo é relativo.

A – Se conversarmos com terapeutas, sobretudo terapeutas familiares, nós vamos nos certificar que o simples fato de uma criança se desenvolver dentro de uma família com pais, avós e irmãos não é garantia de saúde emocional, assim como o desenvolvimento de uma criança em uma família onde os pais se recasaram não é uma garantia de problemas emocionais ou morais.

Em todas estas estruturas de família a saúde emocional, mental e o bom desenvolvimento dos filhos pode ser alcançado ou comprometido. Tudo dependerá muito mais da saúde emocional e do tipo de relação entre os genitores naturais/madrastas e padrastos do que da estrutura estereotipada destas relações.

A crise do modelo familiar tradicional decorre de fatores como a emancipação da mulher, que já não depende do marido para se sustentar; do desprestígio da autoridade paterna; da igualdade de direitos das pessoas; o que embaralha e mina a antiga hierarquia de papéis definidos entre avós, pais, mães, filhos e tios.

B – Se esta afirmação (e citada em primeiro lugar), de que uma dos motivos da crise familiar se deve à emancipação da mulher tivesse sido extraída de um cidadão romano do IIº século depois de Cristo, eu não me surpreenderia… Mas um homem do século XXI…, eu só posso entender que ele usa um “filtro” que lhe proporciona uma visão da vida com uma imagem de um gênero (feminino) inferior ao outro (masculino).

Na minha concepção, e na da psicanálise, este pressuposto de subserviência feminina produziu tanto abuso de poder masculino, tanta angústia, tanta injustiça, tantos “infernos” familiares e tantas consequências nefastas para os filhos e netos.

No período imperial de Roma esta distorção maldosa começou a ruir, mas depois voltou a sucumbir na “idade das trevas” (idade média) por imposição imperial das religiões dominadas pelo gênero masculino.

Certamente a participação da mulher em atividades profissionais fora do “lar” implica em uma redução na disponibilidade do seu tempo dentro do “lar”. O estresse profissional “pode” ter reflexos nas relações dentro do lar, mas isto não implica necessariamente em piora na saúde relacional.

–> A saúde das relações de um sistema familiar é o resultado de inúmeros fatores presentes neste sistema.

–>Esta saúde terá a contribuição dos paradigmas que os membros do casal trazem de suas famílias de origem e dos vínculos que serviram de base para a aproximação e a construção da relação do casal. 

–>Com o passar do tempo este sistema se relaciona com outros sistemas, recebe novos membros (filhos) e busca se adaptar. Os filhos crescem no sistema e passam a se relacionar também com outros sistemas.

–> Dentro de uma visão sistêmica, o que manterá o sistema com boa estabilidade e coesão será dado por relações “agregadoras” entre os membros deste sistema (afeto, acolhimento, suporte, estimulo, compreensão, respeito, entre outras). Com esta dinâmica o sistema permanecerá estável, não se “desagregará” e seus produtos (vidas de seus membros) apresentarão boa saúde.

Essa atomização do núcleo familiar desordena o conceito de autoridade, o exercício da obediência, o patriarcalismo outrora dominante. A família é, agora, um agrupamento funcional de trocas afetivas e interesses econômicos. Nela, os deveres específicos de cada um perdem nitidez. Os rituais de entrelaçamento e consolidação – refeições em comum, frequência dominical ao culto religioso, férias conjuntas, celebrações de aniversários etc. – se esfumaçam sem que seja introduzida nova liturgia de estreitamento de vínculo familiar. 

C – Frei Betto está confundindo aqui dois conceitos muito diferentes e que na língua italiana possui duas palavras distintas: “autorità” e “autorevolezza”. Autorità é o que identificaríamos pelo que pode ser garantido pela função. Assim o simples fato de ser o chefe da família já garante um grau de poder. Autorevolezza está associado ao poder que emana da “competência” e não está necessariamente vinculado ao cargo.

Desta forma, quem possui “autorevolezza” não é dependente de um patriarcalismo, mas do reconhecimento de sua competência, de liderança, de sua sabedoria. Em uma família com genitores “autorevolli”, os deveres não perdem a nitidez, aliás, ganham motivações para serem seguidos. Não vai ser um padre lendo um missal que vai garantir esta clareza.

O que é hoje um lar? Um espaço de moradia onde cada um se locomove de acordo com seus interesses individuais. No lugar da mesa posta com a família em torno, a geladeira como provedora de abastecimento; no lugar da sala como espaço de convívio, o quarto individual como local de refúgio, onde cada um se esconde entretido com a parafernália eletrônica, como TV e internet, que substitui, pelo relacionamento virtual, a sociabilidade calcada na alteridade.

A solidão deixa de ser um recuo à ação solidária e nutrição cultural para funcionar como abrigo de evasão solitária.

 Outra causa de desagregação da família tradicional é o poder exercido pelo império televisivo. A TV é o “terceiro pai”, que desempenha forte influência na formação de crianças e adolescentes. Desloca o núcleo familiar da sua relação de alteridade (conversas em torno da mesa, na varanda, na calçada ou no quintal; jogos de tabuleiro ou baralho; recital de música ou teatro improvisado etc.) para a confluência de todos rumo à tela de TV.

A família real cede lugar à virtual. E em muitas famílias nem há mais justaposição; há um aparelho de TV em cada quarto, atomizando as relações e dificultando o diálogo. 

D – Isto é uma verdade que todos nós somos testemunhas. Mas acho que o texto exagera a correlação entre o que ele chamou de “império televisivo” e o que ele também chamou de “desagregação familiar”. Hoje, ficar longe de pais que não têm esta capacidade de agregar – mesmo em famílias tradicionalmente cristãs… – fica mais facilitado pela oferta de recursos eletrônicos (TV, computador, etc). Antes os filhos refugiavam-se em seus mundos interiores, conversavam o suficiente na mesa, depois iam ler em seus quartos ou ficavam, contra a vontade, na sala vendo o “Repórter Esso”.

Existe um livro que acho fabuloso, mas não sei se foi editado no Brasil. Chama-se Os Novos Adolescentes[1], escrito por Gustavo Petropolli Charnet, professor da Universidade de Milão.

É um dos livros mais abrangentes e realísticos que já li sobre este tema. Nele ele demonstra esta complexa situação em que se encontram os adolescentes de hoje. Os problemas e os medos de hoje são diferentes dos problemas e dos medos de antigamente. Os desafios e as consequências são preocupantes, mas não porque a família é desta ou daquela maneira, mas porque os pais de hoje, eram adolescentes nos anos da liberação, da revolução de ’68, de Woodstock, e não assumem o papel de pais, mas de amigos dos filhos. Os jovens de hoje assumem como certo ou errado o que dizem os ídolos da televisão porque em casa isto não é feito independentemente do tipo de estrutura familiar em que se desenvolve.

A democracia neoliberal – essa que se baseia na aquisição de bens materiais e permite a todos avaliarem seu grau de liberdade segundo sua proximidade ou distância do mercado – impõe-se à família através da TV, anulando os rituais fundados no afeto e na cumplicidade de sangue.

Vale aqui a primeira consideração que fiz (A -)

Já não vigora a autoridade paterna a decidir o que, na TV, convém ou não às crianças. Nem há debate familiar. Cada um decide, a seu bel prazer, o tempo e o conteúdo de sua voluntária sujeição à TV, em detrimento de diálogo familiar, leitura, oração, diversão, exercício físico ou desempenho social (visitas, frequência ao clube, biblioteca, teatro etc).

 A família atual tende a ignorar seus parentes, não se interessa por eles, embora alimente grande apreço pelos novos “parentes” a quem, quase diariamente, abre portas e corações: William Bonner e Fátima Bernardes; Hebe Camargo e Faustão; Luciano Huck e Luciana Gimenez; Datena e Boris Casoy; e toda a plêiade de heróis e heroínas de telenovelas, programas infantis e desenhos animados.

Esses novos tios e tias têm a vantagem de serem sempre divertidos e educados; não pedem dinheiro emprestado, não bebem as nossas bebidas nem comem a nossa comida; não ocupam espaço; não nos convocam às suas doenças; mostram-se sempre saudáveis e risonhos; são ricos e famosos. Como a realidade é cada vez mais virtual, podemos até sentir-lhes o perfume… 

Vale aqui, novamente, a consideração (D -)

Freud ficaria confuso se voltasse hoje. Já não temos necessidade de “matar o pai” ou “odiar o irmão”. Basta discar o número fatal que exclui um “brother” ou trocar de canal a cada vez que aquele chato ou aquela megera aparece no vídeo. 

E – Eu não entendi porque frei Betto misturou a “desagregação familiar” com estes temas tão complexos. No meu entender foi uma banalização de um fenômeno muito complexo seguido de uma analogia inadequada e errônea.

Todas as noites milhões de telespectadores se nutrem abnegadamente dessa sopa de entretenimento – telenovelas, programas humorísticos, esportivos etc. – temperada de tudo isso que falta à sua vida real: o grande amor, a emoção, o desafio, o ideal, a beleza, a roda da fortuna…

 E la nave va. A vida prossegue. Por dentro da TV. Do lado de fora, demitidos do papel de protagonistas, de sujeitos históricos, aceitamos ser meros espectadores instados a consumir. Ou melhor, a conjuntamente sumir. E deixar que ídolos virtuais vivam por nós.

 


[1] Charmet Gustavo Pietropolli, I Nuovi Adolescenti – Padri e Madri di fronte a una sfida, Rafaello Cortina Edittore, 2000

 

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One Response to A PROPÓSITO DE UM TEXTO SOBRE A FAMÍLIA

  1. Obrigado pelo comentário que guardaremos com consideração.
    Um abraço
    Sérgio

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