INDIVIDUALIDADE E INTIMIDADE

Na leitura do livro “Gritos e Sussurros” da Sandra Fedullo Colombo (Vol. II, Vetor Editora, 2006), especificamente na introdução de um dos ensaios publicados com o título Casamentos em Transição (pg 63), escrito pela Janice Rechulski, encontrei algumas considerações que achei muito estimulantes à reflexão.

A introdução do capítulo começa assim:

Como podemos nós, terapeutas, desenvolver, em nós mesmos e nas pessoas que recebemos, a noção de conjugalidade? Como podemos nós, que também fazemos parte da mesma sociedade-espetáculo, ajudar os casais a ampliar sua circulação, no paradoxo[1] individualidade x conjugalidade? Tais são as questões sobre as quais gostaria de refletir neste texto.

Achei interessante o questionamento inicial tanto no seu aspecto específico da terapia bem como pela possibilidade de aplicação desta mesma reflexão nas diversas atividades profissionais e sociais do ser humano. Ela prossegue

Cada um precisa ser um show, nesta sociedade espetáculo, que se caracteriza pela cultura do narcisismo, tornando impossível admirar o outro em sua diferença, já que não conseguimos nos descentrar de nós mesmos. Ela promove indivíduos, mas não a intimidade entre eles. Obriga-nos ou ensina-nos a conquistar, competir, superar limites. Não há lugar, portanto, para o fracasso, para o erro, para o não-saber. Privilegia os resultados, o sucesso, dando ênfase à auto-referência e à autonomia. O que vale é a liberdade e a realização individual.

Fiquei sensibilizado pela clareza e capacidade de síntese deste parágrafo. Nós vemos em nossos relacionamentos pessoais a preocupação sempre presente de obter um destaque, uma supremacia, assim como uma quase obsessão na ocultação ou justificação dos insucessos. Não existe espaço para o insucesso. Fernando Pessoa já tinha assinalado este tipo de postura no poema “Poema em Linha Reta”

 Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

……………

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam

………….

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

……….

A nossa realidade, ou seja, o ambiente onde existimos e nos manifestamos, está estruturada no princípio de seleção do mais forte (C.Darwin). Aqueles que viram o filme “Entrando numa fria maior ainda” [2] podem se lembrar da expressão de incredulidade do pai da noiva quando é apresentado, pelo pai do noivo, à parede de troféus do filho. Os troféus e lembranças assinalam sempre colocações muito distantes dos primeiros lugares. Diante do entusiasmo do pai do noivo (Hoffman) o pai da noiva (De Niro) exclama: “como é possível que alguém se orgulhe de mostrar troféus de quem ficou em 10º ligar?”.

No Brasil é comum dizermos que o que conta é o primeiro lugar, o segundo é “prêmio de consolação”…

 Cada vez é mais estressante o relacionamento profissional onde se pode ver muitas empresas estimulando e premiando os que mais se destacaram, mesmo que tenham usado de meios éticos ou de competências duvidosos. Muitas delas se tornam referência de sucesso e um exemplo a ser imitado. Pode-se até argumentar que o que mantém as empresas são os seus resultados e quem produz estes resultados deve ser recompensado.  Sem dúvida isto é coerente, mas pode-se retrucar também que se para esta recompensa fossem assegurados os critérios de mérito pela competência e o da lisura ética, já estaríamos passando a valorizar também o conteúdo (os meios) para se chegar ao resultado do que simplesmente o resultado em si (os fins). Seriam, nestes casos, melhores exemplos para o desenvolvimento de um crescimento profissional e pessoal.

Mas o grande estímulo à perpetuação deste tipo da cultura da premiação, do resultado independentemente de todo o resto, da superação extremada dos limites de cada um, da intolerância com o fracasso, da impaciência com o não saber é que isto se torna uma melhor qualificação para destaque individual e profissional. Isto acaba representando uma garantia de sucesso para os passos sucessivos das pessoas promovidas e das organizações a que pertencem. A Rechulski é contundente no parágrafo que segue:

Encaramos o outro apenas como objeto de nosso usufruto. Como diz Joel Birman (1999) [3], vivemos permanentemente em um registro espetacular, e o que nos interessa é o engrandecimento de nossa própria imagem. [4]

Esta cultura existe há muito tempo, mas vem se exacerbando nas últimas décadas. Os processos de seleção sempre foram e continuam sendo classificatórios pelos resultados. Em algumas situações, é muito mais difuso e decisivo do que se imagina, que a imagem passada ao selecionador é o que muitas vezes define a escolha.

A introdução da autora se conclui desta maneira:

Além disto, o homem moderno – entendamos modernidade a partir de Descartes (século XVIII), quando todo o conjunto de crenças que fundamentavam o conhecimento teve fim – não busca a verdade no além, em algo transcendente, mas na aquisição de uma representação correta do mundo, interna, no homem, a qual se dá por ele (por causa dele). E esse homem, que desconhece os seus níveis de profundidade, acredita que pode atingir a verdade absoluta e indubitável, desde que siga estritamente os preceitos do método correto, seja ele o racional de Descartes ou o empírico de Bacon. Portanto, há a grande valorização da individualidade e da intimidade, muito bem expressa pela idéia de gênio: ele seria um indivíduo naturalmente especial, dono de um dom único, com a obrigação de realizar e, no entanto, por seu mergulho em si, tem uma grande dificuldade em sua vida prática.

Quando as utopias do iluminismo e da modernidade foram silenciadas, surgiu um mundo desencantado e marcado pela morte de Deus, perpassando pela racionalidade do social e pela racionalização científica, conduzindo o homem a um desamparo inédito e a um masoquismo devastador. Esse mundo, cada vez menos sagrado e cada vez mais objeto de uso – movido por forças mecânicas – está a serviço da humanidade.

Diante de tal contexto, fica reduzido o espaço da conjugalidade e ao desenvolvimento das relações de intimidade. E casamento ou relação a dois, no meu entender, é uma relação de intimidade, em que é preciso dar lugar e voz ao outro. Como poderá então o terapeuta, diante deste contexto, ajudar o casal a ampliar a sua circulação neste outro paradoxo 1: individualidade x intimidade?”

As regras do jogo

 Vou destacar esta frase: “E esse homem, que desconhece os seus níveis de profundidade, acredita que pode atingir a verdade absoluta e indubitável, desde que siga estritamente os preceitos do método correto, seja ele o racional de Descartes ou o empírico de Bacon, e sobre ela poderíamos refletir bastante.

A grande dificuldade que encontramos quando tratamos de um tema como este é que ele é o resultado do desenvolvimento cultural conduzido pelo princípio da sobrevivência e da seleção do mais forte. Este tema deve ser visto sempre de uma maneira mais ampla

A interpretação filosófica, a sociológica, a psicológica ou de qualquer outro enfoque, busca entender e representar, de maneira mais ou menos estruturada, como e porque age o ser humano desta ou daquela maneira. De alguma forma, algumas destas interpretações acabam por influir novas gerações até que com a transformação da sociedade se encontrem novas formas para se entender e representar o que é a vida para o ser humano.

Não podemos deixar de ter em mente também que temos muitas realidades culturais coabitando, muitas vezes, no mesmo espaço físico. Às vezes dentro da mesma casa temos este convívio de culturas muito diferentes. Numa organização e na sociedade em que vivemos o convívio é de várias culturas que tentam interagir nas atividades profissionais e sociais. Cada uma delas já foi, de alguma forma, representada pela visão deste ou daquele pensador ou místico.

O modernismo, a que se refere a autora, contribuiu para o predomínio de concepções da vida como a do hedonismo e do utilitarismo, em detrimento do altruísmo ou de qualquer outra forma de interpretação da vida que se contraponha a estas duas visões. E nem estamos falando de uma visão mística do homem, que se existe teoricamente na mente das pessoas, não se manifesta no pragmatismo de suas vidas.

O hedonismo é considerado como a moral do prazer. Mas foi Bentham quem introduziu o conceito da utilidade como princípio da felicidade. 

Ainda segundo Bertham, a natureza humana colocou o homem sob o império do prazer e da dor. A estes – o prazer e a dor – se devem todas as idéias; a eles se referem todos os julgamentos, todas as determinações da vida. Quem pretende subtrair-se a este julgo não sabe o que diz; tudo o que homem faz tem por único objetivo o prazer e evitar a dor. O princípio da utilidade diz que o útil é o que aumenta o prazer e diminui a dor.  A vida então se transforma num negócio, a moral consiste em fazer ganhos e se reduz a uma conta aritmética: o bem está na coluna do “haver” e o mal na coluna das “despesas”…

A esta altura começa uma diferenciação entre o hedonismo e o utilitarismo quando o bem se estende a um número maior de indivíduos. O utilitarismo passa a ter uma intensa preocupação social enquanto que o hedonismo permanece individualista e egoísta.

Bentham vai mais além: o homem não é verdadeiramente feliz se não é amado. Para sê-lo, a pessoa se ocupa das demais, se torna benévolo e benéfico; sua felicidade aumenta pelo fato de estar rodeado de pessoas felizes e a satisfação da coletividade cresce pelo fato de ser feliz. Desta forma, a pessoa deve buscar não somente a sua felicidade, mas também a felicidade de todos. Esta será a sua norma suprema de moralidade: a maximização da felicidade. Chega-se ao altruísmo baseado no egoísmo.

Se o hedonismo podia ser reduzido à negociação citada anteriormente, o utilitarismo, considerando que o critério moral deva ser a maior felicidade para o maior número de pessoas, também acaba sendo reduzido a uma conta aritmética. A moral se fixa mais na quantidade que na qualidade.

A moral utilitarista é, em síntese, uma moral de todos os dias, concreta, eloqüente, fácil de compreender e operante sobre nossas condutas. Esta moral é suficiente para manter a nossa vida num nível médio de moralidade que a faça suportável, porém não é uma ética muito elevada, não dá nenhum empurrão moral, não desenvolve nenhum espírito de sacrifício. Por mais que se faça o utilitarismo é uma moral sem amor, porque o amor é o contrário do egoísmo e supõe que uma pessoa não busque exclusivamente o seu interesse.

Como não existe uma regra moral objetiva, o sujeito atua “em função da consequência”, segundo a ponderação das suas conseqüências, desculpando-se qualquer equívoco, que não lhe será creditado como uma falha moral, mas como um problema de lógica. Um mal moral se reduz a um problema de erro lógico[5].

Passa-se de uma moral centrada na relação ação-objeto a uma moral centrada na finalidade da pessoa que age.

E aqui volto à frase da Janice Rechulski: “Encaramos o outro apenas como objeto de nosso usufruto”.

Esta cultura de busca a qualquer custo do sucesso e do destaque no ambiente em que nos manifestamos permeia quase onipresentemente a nossa vida.

Conseqüências? Tantas. Uma delas, e talvez a mais triste e devastadora, é o progressivo isolamento do ser humano.

O isolamento só existe no isolamento. Uma vez compartilhado ele evapora”. [6] O que então que dificulta ou até impede este compartilhamento? É esta cultura do “du et des” (dou para que me dês), da hipervalorização da individualidade, da busca constante do sucesso e do destaque sobre os que cercam que vai desenvolvendo uma perda da capacidade de compartilhamento de intimidades.

Na nossa sociedade “os homens vivem misturados, juntos, mas suas leis não se misturam; o que esmaga mortalmente um indivíduo, para outro pode ser incompreensível, porque nunca o experimentou”. [7]

É interessante notar que este isolamento não é desejado nem consciente, mas se desenvolve à medida que o ser humano se manifesta inserido neste sistema que denominamos cultura hedonística – utilitarística da nossa cultura moderna. Um eventual estímulo ao altruísmo é recebido como uma sugestão de quem ainda não compreendeu “como funciona o mundo de hoje”. Mas altruísmo no meu modo de entender é apenas um egoísmo mais amplo. Tanto mais amplo, quanto mais esteja dilatada a consciência individual e o campo que ela abarca.

A cultura que prevalece é a hedonística – utilitarística e uma das suas conseqüências é o isolamento do ser humano e sua incapacidade de compartilhar suas intimidades assim como compartilhar com as intimidades dos outros.

O conceito de intimidade é complexo uma vez que seus significados variam de relacionamento para relacionamento, e dentro de um mesmo relacionamento ao longo do tempo. De qualquer forma, a intimidade está ligada com sentimentos de afeto entre parceiros em um relacionamento. É a intimidade entre duas pessoas que contribui a construir um conhecimento reciprocamente mais profundo entre as pessoas e do compartilhamento consciente das experiências em comum.

Fica muito prejudicado o desenvolvimento de uma intimidade quando sentimento que prevalece é o do individualismo.

Mas efetivamente o que é que percebemos e sentimos destas conseqüências no nosso dia a dia? Não nos colocando fora deste sistema, ou seja, dos ambientes onde nos manifestamos e interagimos, porque fazemos parte deles, o que efetivamente isto significa para nossas vidas.

Fiquei então pensando em como este tipo de contradição entre individualismo e a intimidade poderia repercutir nas relações do nosso cotidiano. Imediatamente me veio em mente a relação de casal.

Um exemplo: A Relação de Casal

Um casal se forma seguindo inexoravelmente uma seqüência que inclui inicialmente uma fase de enamoramento seguida de processos de desencanto para finalmente se reorganizar e atingir uma fase de amor ou desembocar na indiferença ou na ruptura.

O enamoramento se desenvolve construindo vínculos pelo casal. Estes vínculos conjugais são conhecidos como o Vínculo Amoroso, o Vínculo Compensatório e o Vínculo de Conveniência.

A estrutura do casamento é dada então pela própria estruturação do vínculo conjugal [8] que representará a somatória dos três vínculos, o Amoroso, o Compensatório e o de Conveniência. [9] 

O Vínculo Amoroso se caracteriza pela atração erotizada entre o homem e a mulher. É responsável pela sensação de encantamento que se instala entre o casal, e é o que sustenta o amor.

O Vínculo Compensatório ou Simbiótico é sempre um vínculo de dependência. Delegam-se aos parceiros, independentemente da concordância deles ou não, funções psicológicas que deveriam ser responsabilidades de si mesmos.

O Vínculo de Conveniência é baseado nas relações de interesse que acontecem entre parceiros numa relação conjugal.

Numa relação conjugal a estruturação da relação se desenvolve estabelecendo como base principal um destes vínculos, a que chamamos de Vínculo Mestre, mas sustentada também pelos outros dois vínculos que chamamos de Vínculos Auxiliares.

Neste processo de desenvolvimento dos vínculos conjugais estarão em jogo, entre tantas outras coisas, as formas individuais que cada um dos parceiros tem de perceber o mundo. Assim sendo o individualismo e a dificuldade maior ou menor de estabelecer trocas de intimidades e de confidências, estará presente nas dinâmicas envolvidas na construção e estruturação destes vínculos.

Isto pode acabar por tornar impossível admirar o outro em sua diferença, já que não conseguimos nos descentrar de nós mesmos como disse a Janice Rechulski. Na fase pos enamoramento isto se apresenta através de verdadeiras surpresas quando são expressas pelo(a) companheiro(a) como se, finalmente, se descobrisse estar vivendo com uma pessoa desconhecida até então.

No pensamento sistêmico isto pode ser percebido através dos chamados “discursos”: o Discurso do Amor Romântico, o do Amor Moderno e o do Amor Pós Moderno.

No Discurso do Amor Romântico as regras do mundo importam pouco. As leis dos homens, de Deus, ou de quem quer que seja, caem por terra diante deste amor que não conhece fronteiras. Amor Romântico fala do encontro das almas gêmeas.  Se perco meu amor, eu perco a mim mesmo, experimento uma dor sem fim, um vazio, uma loucura. O Discurso do Amor Romântico é um discurso do campo da afetividade.

O Discurso do Amor Moderno existe no campo da razão, da moral, e busca o estabelecimento de um padrão, de regras, do que é certo ou errado, falso ou verdadeiro, estabelece verdades científicas, que serão válidas especialmente para a família nuclear.

Se perco o Amor Moderno, perco meus direitos, posso buscar compensações, e até retaliações, autorizadas pelas leis morais, dos costumes.

 E o Discurso do Amor Pós Moderno é invadido pelo campo intelectual. Se perco meu Amor Pós-Moderno, perco uma pequena fração de mim mesmo, e parto em busca de um novo Amor. Se não der certo, ficamos juntos por hoje, amanhã, vai ser outro dia, começamos tudo de novo. [10]

No discurso do Amor Pos Moderno já se admite claramente a possibilidade de diversidade de interesses entre o casal e a possibilidade normal de rompimento do vínculo amoroso.

A dinâmica e a estrutura dos vínculos conjugais, expressos e percebidos através dos discursos, vão produzir consonâncias e dissonâncias, assim como expressa também o grau de individualismo e da capacidade de compartilhar intimidades de cada envolvido na relação.

Um executivo vai à teparia

Se a primeira imagem que me veio em mente foi a relação de casal, na seqüência, pensei no processo terapêutico de casais como o citado no trabalho da Janice Rechulski ao qual estou fazendo referência.

Quem busca uma terapia está à procura de um alívio para algum tipo de angústia ou problema. O terapeuta é então aquele personagem que tem como papel, através do seu conhecimento e de suas vivências, ajudar o seu paciente ou seus pacientes, no caso do casal ou de uma família, a buscar compreender e superar as causas de suas angústias. Pode-se dizer também que o terapeuta, visto pela perspectiva da terapia e das mudanças que o casal espera sejam alcançadas, possui dois papéis: ele deve ser um observador participante do sistema formado e o terapeuta é um participante que conduz a conversação.[11]

Admitindo ou não, independentemente da escola do terapeuta, ele passa a fazer parte do sistema constituído pelo(s) paciente(s) e por si mesmo. A chamada neutralidade terapêutica é só teórica porque em nenhuma situação conseguimos ser neutros. A neutralidade científica é um mito que não podemos nos deixar cair. [12]

Participando do sistema o terapeuta contribui para a sua conservação ou para o seu rearranjo através da condução da conversação e da co-construção de um sistema mais saudável para o casal. Se mantivermos a linha de raciocínio e os exemplos até agora usados, poderíamos imaginar um sistema formado por um casal de executivos com problemas de relacionamento conjugal e um terapeuta (ou equipe terapêutica). Aqui também a comunicação e as histórias contadas e recontadas a partir de novos enfoques colocarão em evidência não somente a cultura e o comportamento hedonista–utilitarista dos membros do casal, mas também os do terapeuta. Não somente as vivências dos membros do casal, mas as do terapeuta também.

Volto então à dúvida da autora no papel de terapeuta: “Como podemos nós, que também fazemos parte da mesma sociedade-espetáculo, ajudar os casais a ampliar sua circulação, no paradoxo1 individualidade x conjugalidade?”

A resposta não é simples porque cada caso é um caso, mas alguns conceitos poderiam ajudar como impostação geral.

O primeiro é que o terapeuta, no papel de observador participante do sistema dará significados para os significantes colocados de acordo com o seu código interno (ou estrutura para quem preferir). Este seu código interno que permite dar um significado foi construído ao longo da vida do terapeuta e, seguramente, dentro desta cultura hedonista-utilitarista. Sua escala de valores e suas orientações internas terão uma influência não desprezível na condução da conversação (segundo papel do terapeuta). Portanto o terapeuta sabe que não conseguirá estar numa posição de neutralidade.

Em segundo lugar o terapeuta estará atento não somente aos impactos e sensações que os diálogos produzem nos membros do casal, mas também naquilo que estes mesmos diálogos produzem em si. Em muitos casos seria decisiva uma supervisão para aclaramento deste ponto ou utilização de uma equipe reflexiva.

Vou usar duas considerações desta autora feitas respectivamente nas páginas 63 e 65 do seu ensaio:

“Como podemos nós, que também fazemos parte da mesma sociedade-espetáculo, ajudar os casais a ampliar sua circulação, no paradoxo1.” (pg 63) 

O que mais me chama a atenção é como a intimidade entre as pessoas pode ser perturbadora e provocadora de equívocos. Recebo em terapia, alguns casais formados de pessoas altamente qualificadas na vida profissional, capazes de dirigir, de modo inteligente, empresas, organizações ou outros trabalhos com ótimos resultados. No entanto, em casa, no exercício da relação a dois ou da relação com os filhos, desintegravam-se, desabavam. Não tinham desenvolvido, para a relação íntima, a competência necessária – competência muito diferente daquela demandada pelas relações profissionais”. (pg 65)

É clara e consciente a posição da autora com relação à preocupação profissional e ao desafio apresentado pelo casal ao qual faz referência no seu ensaio.

Não tenho nenhuma intenção de comentar o belo trabalho da Janice Rechulski. Mas ele me motivou a fazer algumas reflexões sobre o individualismo e sobre a capacidade de compartilhar intimidades. Sendo assim, no lugar de descrever o desenvolvimento do processo terapêutico, como fez ela, eu volto o meu olhar à superposição de sistemas envolvidos no caso de um casal de executivos que busca uma terapia por problemas de relação no casal.

A criança nasce dentro do seu sistema familiar e ali começa a desenvolver o seu Conceito de Identidade que é o nome dado à “como ela se percebe e como ela percebe o mundo”. À medida que começa a viver fora do ambiente familiar de origem, o seu sistema vai sendo ampliado, reforçando a estrutura já existente ou enriquecendo-a com novas formas de percepção. O ser humano tem então, forçosamente, que viver em sistemas de relacionamentos (pessoal, profissional, amoroso) cada vez mais complexos. Sua necessidade de progredir e o estímulo ao sucesso o leva a tentar o êxito em cada um destes sistemas.

Todos estes sistemas fazem parte de um sistema maior que é aquele que chamamos sociedade. Nela estão os sistemas sociais, os sistemas profissionais, os sistemas empresariais, os sistemas organizativos, os sistemas religiosos, os sistemas familiares (incluindo os estabelecidos pelos casais) e tantos outros. Suas maneiras de interpretar a vida, de estabelecer critérios éticos e definir metas são características de cada sistema, mas certamente não se pode deixar de perceber que formas de interpretar a vida, de critérios éticos e a definição de metas, são fortemente influenciadas pelos valores e critérios dos sistemas dominantes. Esta é a razão do porque fiz aquele comentário sobre o hedonismo e sobre o utilitarismo. Eles representam hoje uma concepção de vasta dominação sobre os sistemas menores e são justificados com as mais variadas formas de dialética.

A sessão de terapia de um casal de executivos colocará em evidência todos estes conflitos de valores provocados pela inevitável promiscuidade dos vários sistemas envolvidos.

Por um mínimo oito até doze horas o casal de executivos estará buscando se destacar num sistema – as organizações – onde prevalecem as leis do utilitarismo e do individualismo. Quanto à intimidade nas organizações, este é um processo que é explicitamente inibido na estrutura formal, mas muito difuso e cultivado na estrutura informal. Nunca é demais reforçar que nas organizações normalmente não é utilizada a palavra intimidade porque é associada a sentimentos de afeto e podem estar conectados ou serem confundidos com sentimentos sexuais. Raramente identificam intimidade como o conhecimento profundo de alguém, conhecendo os vários aspectos ou sabendo como esse alguém responderia em diferentes situações, por causa das muitas experiências em comum.

Por isto é compreensível o desestímulo a qualquer tipo de intimidade por profissionais da estrutura formal já que se teme que ela contribua negativamente para a neutralidade das decisões que um chefe deve tomar.

Os executivos das organizações fazem parte de estrutura formalizada em um organograma e que tem entre suas atribuições aquela de comandar as atividades, os funcionários da empresa, as relações com clientes e fornecedores e, atingir os resultados esperados para a organização. Tudo na organização tem uma utilidade e só deve continuar existindo por esta razão. O sucesso é da empresa, mas a recompensa costuma ser apenas individual. Nas comunicações de promoção dentro destes organogramas costuma-se enunciar que fulano de tal passa a ser responsável por estas atividades, mas nunca vi qualquer explicitação da responsabilidade de conhecer o potencial de seus colaboradores, de estimular a criatividade, de facilitar a circulação e a integração do conhecimento, por exemplo.

Os executivos chegam a sua casa e o sistema requer exatamente aquilo – a intimidade – pelo qual eles não são avaliados nas oito ou doze horas precedentes e, portanto, não desenvolvem uma habilidade prática.

A sensação de quem se encontra neste tipo de situação é, muitas vezes, a de irritação, de incredulidade, de dificuldade de compreensão dos problemas e, quase que naturalmente, da sensação de incapacidade, de impotência diante das coisas que o sistema familiar lhe põe.

O sucesso e o bem estar material é normalmente alcançado através das regras e de uma ética do hedonismo ou do utilitarismo, mas a realização amorosa, afetiva e de auto-desenvolvimento é o prêmio a quem faz concessões ao individualismo e faz conquistas na arte do compartilhamento de intimidades.

Em minhas palestras eu sempre destaquei que o altruísmo é apenas um egoísmo mais amplo. Tanto mais amplo, quanto mais esteja dilatada a consciência individual e o campo que ela abarca. Esta dilatação da consciência só pode se dar em razão inversa ao culto do individualismo.

Em meu modo de ver as coisas, o terapeuta (ou pode estar com um grupo reflexivo), também está inserido numa sociedade que cultiva o individualismo. Ele pode e deve estar atento às suas próprias concepções e percepções da vida para poder co-construir com o casal de executivos as habilidades que os permitam realizações no campo profissional e no campo da relação de casal.

Sérgio Rodrigues

Março 2007


[1] Este foi provavelmente um descuido da autora, porque neste caso a palavra correta é “contradição” e não “paradoxo”.

[2] Entrando numa fria maior ainda (Meet the Fockers) com Robert De Niro, Ben Stiller, Dustin Hoffman, Barbara Streisand, Universal Pictures / DreamWorks SKG / Tribeca Productions / Everyman Pictures, 2004

[3] Birman J., Mal estar na atualidade, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1999, pgs 25-26.

[4] Réu ‘feio’ tem mais chance de ser julgado culpado (22 de Março de 2007)

Uma pessoa atraente tem mais chances de escapar de uma condenação criminal do que uma feia. Conforme um estudo realizado na Grã-Bretanha e divulgado nesta quinta-feira, os réus considerados feios têm desvantagem na hora do julgamento. “Talvez a Justiça não seja tão cega assim”, disse Sandie Taylor, da Universidade de Bath, uma das autoras do estudo, em entrevista à rede britânica BBC.

A pesquisa foi feita com 96 voluntários, que ouviram a descrição de um crime (um roubo fictício) com uma foto de um acusado, também falso. Os participantes do estudo tinham de responder, numa escala de zero a dez, o quanto os réus eram culpados. Se considerassem o acusado responsável pelo crime, tinham de estabelecer uma sentença. Conforme os britânicos, o crime era sempre o mesmo, mas a resposta variou de acordo com a aparência do réu apresentado na foto.

“Os réus atraentes são, ao que parece, julgados de forma menos rígida do que os réus feios”, disse a pesquisadora Taylor. Ela disse que quatro fotos foram usadas: a de um branco bonito, de um branco feio, de um negro bonito e de um negro feio. Não houve diferença no número de condenações aos brancos e negros. Quando os negros eram considerados culpados, porém, os voluntários geralmente decidiam por penas maiores contra eles.

A autora do estudo disse, contudo, que há um aspecto animador nessa comparação em relação aos grupos étnicos. “É uma descoberta positiva o fato de que nem os participantes brancos nem os negros mostraram uma inclinação para com seu próprio grupo”, explicou ela. O curioso estudo foi apresentado nesta quinta-feira durante sessão da Conferência Anual da Sociedade Britânica de Psicologia.

[5] Fontrodona Felip, El Utilitarismo en la empresa, Cuadernos de Empresa y Humanismo, Pamplona, 1989, pg 46

[6] Yalon, Irvin D., Quando Nietzsche chorou, Ediouro, Rio de Janeiro, 1995, pág. 357.

[7] Ubaldi Pietro, A grande Síntese, Ed Lake, 9ª Edição, São Paulo, 1975, pag 298.

[8] Vínculo conjugal é toda e qualquer relação existente no casamento, entre um homem e uma mulher.

[9] Dias Victor R.C.S., Vínculo conjugal na análise psicodramática, Editora Agora, São Paulo, 2000, pg 13.

[10] Costa Juares Soares, Conversação musical, tema: OS CASAIS: Em busca de um tom para uma dupla desafinada ou Discursos Amorosos Fragmentados, Instituto de Terapia Familiar e de Comunidade de Campinas, 2005.

[11] Anderson Harlene, Goolishian Harold A., Los sistemas humanos como sitemas linguísticos: implicações para a teoria clínica e a terapia familiar, Galveston Family Institute, Revista de Psicoterapia, Vol II, nº 6-7, pg 58

[12] Massimo A. Bonfantini, Marco Macciò, La Neutralità Impossibile, Milano, Gabriele Mazzotta editore, 1977

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