Instruir e educar

Há quanto tempo se conversa e se discute sobre este tema… Acho que estes dois processos ainda serão debatidos por muito tempo, sobretudo sobre sua forma pragmática de execução. Não é sobre estes processos que eu quero fazer considerações, mas exatamente sobre o que significa cada um deles e evitar o que acontece frequentemente, ou seja, a confusão conceitual sobre estes dois processos diferentes.

Buscando a origem e a evolução das palavras vamos sempre encontrar uma vinculação com o significado inicial que ela buscava transmitir seguido da evolução que sofreu no tempo. Vejamos então o que nos contam as histórias destas duas palavras do título.

Instruir nasceu da raiz indo-européia*ster- e que significava estender, espalhar. No latim sofreu a primeira adaptação (evolução) assumindo a forma de struere e que significava acumular ou estender em camadas superpostas. Esta evolução avançou um pouco mais quando se colocou um prefixo (in-) antes deste verbo (struere) formando a palavra instruere. Significava ajuntar em, amontoar em, e que a princípio não tinha restrições de ordem ou finalidade. Posteriormente sofreu uma leve restrição semântica e passou a significar ajuntar ou amontoar segundo um fim: ajuntar materiais para construir um edifício, por exemplo.

Finalmente sobreveio nova mudança semântica e o vocábulo, do sentido concreto de passou ao sentido abstrato de ajuntar idéias, como para estruturar a mente, que é a acepção vigente do instruir em português.

A evolução do sentido chega à acepção de acumular conhecimento, mas arrasta uma conotação estática, razão pela qual a palavra instrução sugere ainda uma série de noções de todo estranhas às correntes mais profundas do metabolismo psicológico.

Tais noções prevêem um crescimento mental, porem não é raro, culmina com uma hipertrofia de uma visão unilateral das coisas e do mundo.

à Instruindo, a mente efetivamente se desenvolve, mas cresce como crescem os minerais, por justaposição, isso e, de fora para dentro. É certo que a instrução pode criar mentes enciclopédicas, mas não se pode esquecer que não poderá criar o gênio. ß

A palavra educar também nasceu de uma raiz indo-européia que era a raiz *deuk e que significava levar, conduzir, guiar. No latim ela se concretizou como ducare. Logo depois recebeu o prefixo e-, que foi aposto ao verbo ducere formando educere. A este verbo se associava a noção de levar para fora, fazer sair, extrair e por metáfora passou a significar dar a luz, produzir.

Educare, cuja acepção primitiva era a mesma de educere, se especializou no sentido de criar (uma criança), nutri, fazer cresce. Desta forma, visto à luz da etimologia, educare significa trazer à luz a idéia, ou em termos filosóficos, fazê-la passar da potência ao ato, da virtualidade à realidade.

A educação é um processo dinâmico. Ela é vital porque faz crescer a própria vida de dentro para fora. É mais do que uma simples agregação de conhecimentos, ela é uma maturação interior, um desenvolvimento de capacidades latentes.

Feitas estas considerações posso ainda acrescentar que estes processos podem ser desenvolvidos separadamente ou simultaneamente, mas o mais importante é ter sempre em mente que estes dois processos têm dinâmicas diferentes. Um (instruir) é um processo de fora para dentro enquanto o outro (educar) é um processo de dentro para fora.

O processo de fora para dentro (instrução) permite o acúmulo de conhecimentos e de especializações. O processo de dentro para fora dará orientação de interpretação e aplicabilidade ao conhecimento acumulado. O primeiro permite a aquisição de material (conhecimento) importante para a vida da pessoa, enquanto o segundo lhe fornecerá as estruturas moral e a ética, desenvolvidas em sua personalidade. O processo de instrução está sujeito à volatilidade da memória, e como tudo que é de fora para dentro, não é definitivo. O processo de educação constrói o conceito de identidade e este, ainda que transformável, é um patrimônio intrínseco de cada um de nós.

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