CONHECIMENTO E ESTRATÉGIA COMPETITIVA (1)

Três níveis de organização do conhecimento distribuido

Todas as sociedades esperam que o desenvolvimento de pesquisas inovadoras possa contribuir para o seu progresso social e produtivo. Continuamente nos disponibilizam novos instrumentos de conectividade e facilitações no intercâmbio para o desenvolvimento de novas formas de conhecimento e de cooperação entre instituições e indústrias.

Mas como poderemos criar modelos que contribuam para a integração de novas formas de colaboração local e global? E mais, como transportaremos para o futuro o saber, a cultura e as experiências do passado que contribuíram para o nosso presente.

 A busca de respostas nos leva a considerar como fundamental as perspectivas criadas pelo recurso que o enfoque multidisciplinar pode oferecer à solução dos problemas complexos. É sempre mais consensual a importância de se criar e valorizar uma rede consciente de competências. O foco se desloca então para o patrimônio do conhecimento compartilhado e a sua representação através dos novos meios tecnológicos.

Nossa realidade evidencia uma crescente interação entre as geografias físicas e as virtuais. Fatores geográficos, culturais, sociais além dos fatores comunicativos estão mais próximos hoje do que há alguns anos atrás. Novas possibilidades tecnológicas estão sendo constantemente oferecidas. Novas disciplinas emergem para o estudo dos fenômenos complexos de natureza transdiciplinar, do papel do conhecimento compartilhado e, sobretudo, do seu valor dentro da uma rede. Tudo isto é muito importante para o desenvolvimento de projetos no futuro.

Como conseqüência de tudo isto a gestão do conhecimento foi sendo organizada em três macros níveis de complexidade. Figura 1

No primeiro nível o foco, o objetivo e a extensão física se circunscrevem numa área relativamente reduzida. Nesta dimensão a distribuição do conhecimento está compreendida em uma área geográfica delimitada pelo campo de interesse e de possibilidades de uma empresa (A).

Um segundo nível de complexidade de distribuição do conhecimento se expande através de uma rede internacional cujo foco e objetivos são determinados pela profundidade e extensão de uma pesquisa científica (B).

O mais complexo dos níveis de distribuição do conhecimento é aquele que também se extende internacionalmente, mas cujo objetivo é um problema global e diz respeito a instituições (C).

Vejamos exemplos destes casos, começando pelo projeto da motocicleta Terra Modena 198. [1]

Este projeto foi desenvolvido na empresa Terra Modena e visava desenvolver um sistema de Gestão do Conhecimento para suportar o processo decisional de especialistas para desenvolvimento da especificação e da produção de um novo produto de alto impacto inovador no setor mecânico.

Para isto estabeleceu-se uma intensa colaboração com a Universidade de Milão-Bicocca e a ITEA srl, empresa fabricante de moldes. Este sistema deveria abranger uma rede de pequenas e médias empresas que colaborariam para a realização deste projeto inovador.

A empresa Terra Modena se localiza em uma região da Itália caracterizada pela paixão e cultura pelos motores (Ducati, Ferrari, Lamborghini, Masserati…). Este contexto é caracterizado pela alta densidade de competências muito boas e heterogêneas em pequenas e médias empresas dotadas de know how de alto valor.

Construiu-se então uma rede de relações independente dos contextos organizativos formais. São as chamadas comunidades de prática que veremos mais exaustivamente no capítulo Conceitos ligados à gestão do conhecimento.

Resumidamente podemos imaginar uma comunidade de prática como um grupo de pessoas que se comunicam e interagem de modo informal dentro de uma organização para compartilhar os seus conhecimentos através de um processo social de aprendizagem recíproca. Os membros de uma comunidade de prática são caracterizados pelo empenho em qualquer atividade pela forte coesão social que os une e por um compartilhamento de uma “cultura” específica.

Em termos empresariais, para passarmos de uma comunidade de prática para uma Rede de Competências é preciso levar em conta que a consciência do valor do conhecimento se mede sobre o terreno da inovação competitiva. Um produto inovador é um “sintoma” da materialização da consciência do valor do conhecimento.

As comunidades de prática são os lugares nos quais se origina a consciência do valor do conhecimento:

  • Os produtos inovadores podem ser pensados como o efeito de se colocar em prática as competências, as negociações e as estratégias (consciência do valor do conhecimento).
  • Mas a consciência do valor do conhecimento em si não é suficiente para possibilitar a inovação.

As formas organizativas que abrem espaço para as comunidades de prática são estruturas que mais favorecem o nascimento, o crescimento e a colocação em prática da consciência do valor do conhecimento na comunidade, portanto das possibilidades desta comunidade colocar em ação uma inovação.

A inteligência prática das comunidades de prática nutre-se em uma estrutura de saber baseada em dados e fatos que constituem o patrimônio cultural da comunidade.

O tipo de conhecimento de que as Comunidades de Prática são depositárias é, portanto, um saber prático, baseado no conhecimento de fatos (episódios), em suas narrativas e em sua capacidade de manipular tais narrativas.

Outro passo importante foi estabelecer a rede de gerenciamento do projeto. Para isto foram escolhidos parceiros baseados nos requisitos de proximidade geográfica e excelência de competência.

Esta rede de gerenciamento coordena até hoje todos os parceiros, validando os passos intermediários que vai desde o projeto à montagem final do produto. Esta rede administra a montagem de todas as partes da moto e as outras funções empresariais. Se não for possível identificar um parceiro ideal nas proximidades da Terra Modena busca-se então capacidades junto aos lideres de mercado, escolhendo também fora dos limites regionais ou italianos (Mechacrome-França, Brembo-Lombardia, Dunlop-USA, Ohlins-Suécia).

 A Terra Modena 198 é um produto mecânico composto de aproximadamente 1500 partes, projetado e realizado por uma rede de 28 pequenas e médias empresas.

Eis o pensamento de Dario Calzavara, seu proprietário e idealizador, e com quem tive o prazer de trabalhar por vários anos:

“O valor e a experiência das pessoas que participam do projeto vem antes de tudo. Depois um conceito simples: nenhuma empresa hoje, grande ou pequena que seja, pode pensar em desenvolver o conhecimento de projeto e pesquisa exclusivamente no seu interno. A tecnologia é permeável e se desenvolve em uma velocidade impensável a alguns anos atrás. O nosso conhecimento está na capacidade de administrar este processo e destinar os investimentos onde é maior o retorno para o valor empresarial. Investimos em cérebros e conhecimento, não em maquinário, e ser uma empresa que começa é uma vantagem porque não temos preconceitos cristalizados, somos abertos às idéias e às inovações”. [2]

 Se a moto Terra Modena 198 representa a gestão do conhecimento no nível de empresa, o projeto AISCA [3] exemplifica bem a esta gestão no nível internacional de pesquisa acadêmica.

Este projeto foi criado, desenvolvido e concluído como uma pesquisa multidisciplinar para a recuperação do patrimônio histórico-arqueológico do centro da Ásia, além de servir como plataforma para o desenvolvimento de perspectivas teóricas.

A AISCA se propôs a definir uma plataforma útil ao desenvolvimento de novos modelos para o estudo das dinâmicas históricas e das evoluções culturais no centro da Ásia.

Os diferentes entes de pesquisa que participaram deste projeto se reportavam a um setor específico através da emissão e da modificação autônoma e integrada dos dados. A primeira base operativa da AISCA foi em Samarcanda (Uzbequistão) junto da sede da UNESCO no International Institute for Central Ásia Studies (IICAS). Depois se criou um laboratório de estudos na Universidade de Samarcanda para os estudos ecológicos e ambientais de um centro para a documentação do patrimônio arqueológico em Tashkent (Uzbequistão)

Para dar uma idéia da complexidade da distribuição geográfica dos entes envolvidos basta ver o elenco destes membros do projeto:

  • Universidade de Harvard (EUA)
  • Universidade Charles de Praga (República Tcheca)
  • Universidade de Kioto (Japão)
  • Centro de Pesquisas Internacionais para Estudos Japoneses (Japão)
  • Universidade Ludwig-Maximilians de Munique (Alemanha)
  • Instituto de Arqueologia Alemão (Alemanha)
  • Universidade Martin-Luther de Halle-Wittemberg (Alemanha)
  • Missão Arqueológica de Bactriane (França)
  • Instituto Francês de Estudos sobre a Ásia Central (França)
  • Maison de l’Archéologie et de l’Ethnologie da Iniversidade de Paris (França)
  • Instituto Internacional para Estudos da Ásia Central – UNESCO
  • Universidade de Barcelona (Espanha)
  • Universidade de Bolonha (Itália)
  • Universidade de Milão-Bicocca (Itália)
  • Universidade Católica de Louvain (Bélgica)
  • Universidade do Estado de Samarcanda (Uzbequistão)
  • Universidade de Sidnei (Austrália)

O último exemplo é o que trata da maior dimensão que a gestão do conhecimento pode alcançar e é quando ela tem como objetivo a solução de problemas que acontecem em escala global. Nestes casos os projetos têm que ter obrigatoriamente a participação de instituições internacionais que cubram todos os aspectos multidisciplinares do conhecimento necessariamente envolvido.  Um exemplo poderia ser o projeto CROWDYXTY (de CROWd DYnamics and compleXITY). É um projeto que busca compreender a complexidade e a dinâmica das multidões. 

“Multidão é um grupo grande de pessoas firmemente agrupadas, sem uma estrutura hierárquica e uma liderança duradoura, pessoas numa multidão sofrem perda das suas individualidades e a comunicação na multidão é predominantemente local”. [4] 

Muitas das barreiras culturais e institucionais existentes não permitem a permeabilidade necessária entre os conhecimentos provenientes das diferentes disciplinas. É fundamental superar estas resistências no processo de busca da solução para um problema global.

O estudo da “multidão” como um fenômeno de auto organização coletiva e a pesquisa de modelos explicativos deste comportamento a partir da perspectiva da ciência dos sistemas complexos é o principal objetivo do CROWDYXTY. Este projeto busca demonstrar que a perspectiva multidisciplinar é realística, promissora e cientificamente razoável.

Para obter esta meta, o projeto investiga o papel de novas tecnologias para a obtenção de dados reais em multidões. Investiga também a coerência entre os dados quantitativos com o conhecimento experimentado, a modelação e simulação de situações significativas de multidões (isto também pode favorecer o estudo do papel do líder na formação de padrões auto organizados). A idéia é que o projeto proporá uma nova estrutura metodológica como suporte para a gestão de grandes massas de pessoas. O produto final do projeto será a definição de uma roadmap para futuras pesquisas e iniciativas de previsão no que concerne às multidões.

A multidisciplinariedade do projeto abrange as seguintes áreas do conhecimento:

  • Inteligência Artificial
  • Sociologia
  • Psicologia
  • Etologia
  • Física
  • Urbanística
  • Estatística
  • Arquitetura
  • Engenharia estrutural
  • Gestão e organização de multidões
  • Ciência da complexidade 

As instituições envolvidas são:

  • Centro Nacional de Pesquisa Científica, Toulouse (França)
  • Centro de Pesquisas sobre a Cognição Animal, Toulouse (França)
  • Universidade de Tecnologia de Dresden (Alemanha)
  • Universidade de Tecnologia Eindhoven, Heindoven (Noruega)
  • Academia de Ciências da Rússia – Divisão Siberiana, Krasnoyarsk (Rússia)
  • Universidade Umm Al-Qura, Makkah (Arábia Saudita)
  • Universidade College London (UCL), Londres (Inglaterra)
  • Centro para Análise Espacial Avançada (ligada à UCL), Londres (Inglaterra)
  • Universidade West England, Bristol (Inglaterra)
  • TechNet Alliance, Pittsburgh (USA)
  • Universidade de Milão-Bicocca (Itália)
  • Policia Militar (Policia di Stato), Milão (Itália)
  • Empresa de Transportes de Milão (ATM), Milão (Itália)
  • Centro Científico Krasnoyarsk de SB RAS, Krasnoyarsk (Rússia)

Este projeto se utiliza de modelos para a simulação de massas nos seguintes tópicos:

  • Suporte à gestão da segurança para situações de evacuação, disposição de infra-estruturas móveis e posicionamento de sinais.
  • Estudo do comportamento de pedestres para a visualização dos diversos modelos de comportamento em contextos realísticos, como as zonas para pedestres, praças ou centros comerciais. Estes modelos devem permitir a experimentação no computador de cenários críticos assim como verificar a eficácia das ações a serem tomadas. Devem ainda possibilitar a simulação de massas heterogêneas (violentas ou pacíficas)
  • Suporte à formação dos responsáveis (operadores) pela segurança, simulando cenários conhecidos, demonstrações de intervenções alternativas, além de verificar os efeitos das técnicas ensinadas. 

Finalmente, o valor deste conhecimento especializado, partindo de protótipos demonstrativos e chegando a sistemas baseados na experiência e casos de uso real, compartilha o conhecimento de especialistas em transportes, gestão de espaços para eventos, polícia militar entre tantos através de projetos comuns e de caráter multidisciplinar. 


[1] http://www.terramodena.com/

[2] “Il valore e l’esperienza delle persone che partecipano al progetto, innanzitutto. E poi un concetto semplice: nessuna azienda oggi, grande o piccola che sia, può pensare di sviluppare il know how di progettazione e di ricerca esclusivamente al proprio interno. La tecnologia è pervasiva e si sviluppa ad una velocità impensabile solo qualche anno fa. Il nostro know how sta nella capacità di gestire questo processo e di indirizzare gli investimenti dove maggiore è il ritorno per il valore aziendale. Investiamo in cervelli e conoscenza, non i macchinari, e l’essere una “start up” è un vantaggio perché non abbiamo pre concetti cristallizzati, siamo aperti alle idee, all’innovazione.” (Dario Calzavara) 

[3] Archaeological Information System of Central Asia  

[4] Prof. Andy Adamatzky, Community of European Management of Schools, University West England, Bristol, BS16 1QY UK

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